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Ideias e Inovações - Ano 2012 - Volume 27 - Número 4

RESUMO

Neste artigo é apresentado um instrumento cirúrgico alternativo para suspensão da camada fibroadiposa do terço médio da face. A agulha foi confeccionada com fio de Kirschner, de forma que ambas as pontas se tornaram rombas. A dupla ponta possibilita a passagem do fio pelo sistema musculoaponeurótico superficial da face (SMAS), mantendo a sutura com a profundidade necessária para evitar dermatografia. Os testes com o novo instrumento foram realizados em ritidoplastias com dissecção mínima. A agulha descrita demonstrou-se segura, com fácil migração pelos tecidos e ausência de lesões vasculonervosas, facilitando o posicionamento dos pontos de fixação nos locais planejados. A agulha desenvolvida possibilitou a realização da ritidoplastia sem descolamento resultante de forma rápida, simples e custo-efetiva, com mínimo dano às estruturas anatômicas e aos tecidos.

Palavras-chave: Face/cirurgia. Ritidoplastia/métodos. Rejuvenescimento.

ABSTRACT

This article describes an alternative surgical instrument that can be used for suspension of the malar fat pad. The needle was created using Kirschner wire to ensure that both tips were blunt. The double tip allows for passage of the wire through the superficial muscular aponeurotic system, ensuring that the suture is sufficiently deep to avoid dermatography. The utility of the new instrument was tested in rhytidoplasties involving minimal dissection. The needle described herein was proven safe, and could easily migrate through the tissues, without creating vascular and nerve lesions, and facilitate the positioning of the fixation points at the intended sites. The use of this needle for rhytidoplasty was quick, simple, and cost-effective, without any resulting dissection or damage to the anatomical structures or tissues.

Keywords: Face/surgery. Rhytidoplasty/methods. Rejuvenation.


INTRODUÇÃO

O desenvolvimento de técnicas minimamente invasivas é uma tendência na cirurgia plástica moderna. Tratamentos que possibilitem menor número de complicações, curto tempo cirúrgico, cicatrizes mais discretas e sejam efetivos na correção do contorno facial estão em evidência. Na literatura tanto nacional como internacional, encontram-se diversos trabalhos que demonstram a efetividade das técnicas de suspensão facial por fio, associadas ou não a ritidoplastia, como round block, fio russo e outras, que tentam suprir essa demanda1,2.

Os procedimentos cirúrgicos são considerados executores-dependentes; assim, o instrumental utilizado tem importância capital na obtenção de bons resultados. A prática diária utilizando agulhas cirúrgicas e a necessidade de maior agilidade durante esse tempo cirúrgico motivaram o desenvolvimento de um novo dispositivo, que torna mais fácil a utilização de fios de sutura nesse contexto1.

O presente trabalho apresenta o modelo de um novo dispositivo de fácil confecção, inicialmente desenvolvido para a utilização em ritidoplastias com mínimo descolamento resultante.


MÉTODO

O dispositivo tem como objetivo fixar o reposicionamento do sistema musculoaponeurótico superficial da face (SMAS) e da gordura facial por meio de suturas sob a pele sem descolamento.

A agulha foi confeccionada com fio de Kirschner, de forma que ambas as pontas se tornaram rombas (Figura 1). O instrumento possui 2,5 mm de diâmetro no corpo, 3 mm na ponta e comprimento de 22 cm.


Figura 1 - Agulha para suspensão do SMAS, com dupla ponta romba com orifícios para passagem do fio.



A ponta romba e atraumática dupla, com orifícios em ambas as extremidades, permite a passagem de fios de sutura comuns (Figura 2). A dupla ponta possibilita a passagem do fio pelo SMAS sem saída na pele, mantendo a sutura com a profundidade necessária para evitar dermatografia.


Figura 2 - Passagem do fio na região retroauricular, com o fio montado na extremidade distal.



A ponta romba atraumática evita possíveis lesões às estruturas vasculonervosas da face resultantes da passagem às cegas de instrumentos cortantes.

Os testes com o novo instrumento foram realizados em ritidoplastias, em que a agulha atravessou o tecido subcutâneo sem cortar a pele, sendo sua passagem facilitada pelo corte com lâmina de bisturi através da face externa da pele (Figura 3).


Figura 3 - Enlace das estruturas musculoaponeuróticas sem descolamento resultante.



Técnica Cirúrgica

Os pacientes foram submetidos a anestesia geral, infiltração local com lidocaína 0,25% com epinefrina na proporção de 1:200.000 na região facial a ser descolada.

Foram realizadas incisão pré e retroauricular e dissecção mínima, limitando-se a porção de pele redundante que seria ressecada. A agulha foi introduzida na região retroauricular, permitindo o posicionamento do fio de náilon incolor 4.0. Após o enlace do SMAS com o fio, a agulha sem cabo e com orifício nas duas extremidades permitiu o retorno fácil do fio para a região retroauricular, onde foram realizados os nós. Foram utilizados três pontos de fixação definidos para suspensão do terço médio da face e região cervical. Após ressecção cutânea, procedeu-se à síntese sem descolamento resultante.


RESULTADOS

A agulha descrita demonstrou-se segura, com fácil migração pelos tecidos e ausência de lesões vasculonervosas, facilitando o posicionamento dos pontos de fixação nos locais planejados.


DISCUSSÃO

A suspensão do SMAS com pontos de tração contribui na sustentação da pele, diminuindo a tensão na área de cicatriz e melhorando o contorno facial pelo reposicionamento das estruturas profundas3. Técnicas para sutura fechada dessa estrutura estão sendo amplamente difundidas, embora apresentem limitações ao uso, como ptose leve a moderada das estruturas musculoaponeuróticas, redundância de pele discreta ou ausente e resultados limitados4,5.

O desenvolvimento de um novo instrumento capaz de aliar a ritidoplastia minimamente invasiva à suspensão do SMAS possibilita resultado estético satisfatório, com curto tempo cirúrgico, menor trauma e cicatrizes discretas. Esse dispositivo contribui para aprimorar os resultados e facilitar o ato operatório para o cirurgião.

O instrumento em questão difere das agulhas disponíveis, como as de Casagrande, Reverdin e Graziosi, pela ausência de cabo, que permite ultrapassar as estruturas, e pela presença de dupla ponta com orifícios para passagem de fio, que facilitam movimentos de passagem e retorno pelos tecidos. A ausência de exteriorização do fio possibilita o enlace das estruturas a certa distância da pele, suficiente para evitar dermatografia. Nas tentativas de realização dos procedimentos com as outras agulhas, houve necessidade de várias passagens e retiradas de fio, aumentando o tempo cirúrgico e dificultando o procedimento.


CONCLUSÕES

A agulha desenvolvida possibilita a realização da ritidoplastia sem descolamento resultante de forma rápida, simples e custo-efetiva, com mínimo dano às estruturas anatômicas e aos tecidos. Esse instrumento oferece a promessa de menor trauma cirúrgico e reduzida taxa de complicações, com potencial de tornar-se um instrumento clinicamente efetivo na suspensão do SMAS.


REFERÊNCIAS

1. Atiyeh BS, Dibo SA, Costagliola M, Hayek SN. Barbed sutures "lunch time" lifting: evidence-based efficacy. J Cosmet Dermatol. 2010;9(2):132-41.

2. Bafutto MG. Agulha para pontos internos de suspensão por fios. Rev Bras Cir Plást. 2008;23(4):310-2.

3. Farrapeira AB. Abordagem segmentar do terço médio da face. Triângulo na região geniana: ponto de sutura dermogorduroso. Rev Bras Cir Plást. 2009;24(4):497-503.

4. Murtha AP, Kaplan AL, Paglia MJ, Mills BB, Feldstein ML, Ruff GL. Evaluation of a novel technique for wound closure using a barbed suture. Plast Reconstr Surg. 2006;117(6):1769-80.

5. Fernandes JW. The sling lift: an ancillary procedure for malar rejuvenation. Aesthetic Plast Surg. 2007;31(5):454-9.










1. Médica residente do Serviço de Cirurgia Plástica e Microcirurgia Reconstrutiva do Hospital Universitário Walter Cantídio da Universidade Federal do Ceará (UFC), membro associado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Fortaleza, CE, Brasil.
2. Cirurgiã plástica, membro associado da SBCP, preceptora do Serviço de Cirurgia Plástica e Microcirurgia Reconstrutiva do Hospital Universitário Walter Cantídio da UFC, Fortaleza, CE, Brasil.
3. Graduanda do curso de Medicina da UFC, Fortaleza, CE, Brasil.
4. Cirurgião plástico, membro titular da SBCP, regente do Serviço de Cirurgia Plástica e Microcirurgia Reconstrutiva do Hospital Universitário Walter Cantídio da UFC, Fortaleza, CE, Brasil.

Correspondência para:
Juliana Régia Furtado Matos Rua Mombaça, 164 - Aldeota
Fortaleza, CE, Brasil - CEP 60160-190
E-mail: julianarfm@gmail.com

Artigo submetido pelo SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBCP.
Artigo recebido: 5/6/2012
Artigo aceito: 23/7/2012

Trabalho realizado no Serviço de Cirurgia Plástica e Microcirurgia Reparadora do Hospital Universitário Walter Cantídio da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil.

 

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