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Geral - Ano 2011 - Volume 26 - (3 Suppl.1)

INTRODUÇÃO

Queimaduras constituem um grande problema de saúde pública. Um estudo retrospectivo, baseado em características demográficas dos pacientes (pcts) internados, traz informações importantes para a condução e determinação do prognóstico destes pacientes.


OBJETIVO

Comparar queimaduras autoprovocadas (QAP), inclusive as tentativas de suicídio (TS), às não-autoprovocadas (nãoAP).


MÉTODOS

Foram incluídos pacientes com queimaduras acima de 15% da superfície corporal e idade entre 15 e 65 anos, num total de 47 pacientes internados entre julho 2009 e de 2011. Foram definidos dois grupos de pacientes: 13 (27,65%) casos de QAP e 34 (72,35%) casos de lesões acidentais. O grupo das QAP possuía idade média de 33,8 anos, 84,61% de sexo feminino, agente predominante foi álcool líquido (84,61%), um caso de outra lesão associada (ferimento por arma branca abdominal sem lesão visceral), superfície queimada média de 29,3%, houve lesões de terceiro grau em 53,8% dos casos, necessidade de escarotomia em 23,1%, lesão inalatória (comprovada por broncoscopia) em 15,4%. Antecedente de tabagismo em 15,4%, etilismo em 7,71%, uso de drogas em 15,4%, depressão em 38,5%, hipertensão arterial em 7,71%; nenhum caso de esquizofrenia ou diabetes prévias. O grupo das lesões nãoAP possuía idade média de 33,6 anos, sendo 20,6% dos pacientes do sexo feminino. O agente predominante foi álcool líquido (25,8%), seguido de gás inflamável derivado de petróleo (17,7%), gasolina (11,8%), óleo (8,8%), água (8,8%), outras (incêdio, outras chamas, elétrica). Houve 5 (14,7%) casos de traumas associados (quedas ou colisões automobilísticas). A superfície queimada média foi de 27%, houve lesões de terceiro grau em 38,2% dos casos, necessidade de escarotomia em 11,8%, 11,8% de lesão inalatória (comprovada por broncoscopia). Antecedente de tabagismo em 23,5%, etilismo em 20,5%, uso de drogas em 5,9%, depressão em 2,9%; um caso de esquizofrenia, 2 (5,9%) de diabetes e 6 (17,7%) de hipertensão arterial prévia. Caracterizamos: insuficiêcia respiratória quando foi necessária ventilação mecânica. As indicações são padronizadas: relação pO2/FiO215000), desvio à esquerda (>10% de bastonetes), ascensão de dosagens de proteína C reativa (PCR > 12) e piora do estado geral. As dosagens de PCR e a leucometria após 48 horas de internação foram registradas. Trombose venosa diagnosticada clinicamente e por ultra-sonografia Doppler. Os procedimentos cirúrgicos considerados foram aqueles realizados em centros cirúrgicos, sob anestesia geral. Perda de enxerto foi considerada quando atingiu mais de 20% das áreas.


RESULTADOS

O grupo das QAP apresentou um caso de trombose venosa profunda. Necessitou de 19 procedimentos de desbridamento, em 9 (69,23%) pacientes, sendo que 4 pacientes não chegaram a realizar desbridamentos (2 por óbitos precoces e 2 por não haver indicação), e 15 enxertias em 10 pacientes. Houve perda parcial de enxertia em 2 (15,4%) pacientes. Houve prevalêcia de insuficiêcia respiratória em 46,2% dos casos, sendo necessários, em média, 15,8 dias de entubação orotraqueal. Dentro do grupo de 6 casos, o valor da relação PO2/FiO2 médio 198,53, e o tempo médio de IOT foi de 40,8 dias. Insuficiêcia renal ocorreu em 7,7% dos casos. Ureia média após 48h foi de 37,23 e creatinina média após 48 horas, 0,98. A média da relação entre ureia e creatinina após 48 horas foi de 31,7 e o clearance de creatinina estimado médio foi de 94,2. Necessidade de tratamento com antibióticos de amplo espectro em 76,9% dos casos. A dosagem da PCR média após 24 horas foi de 17,9, e a leucometria média após 24 horas 9,92. O tempo médio de internação foi de 42,92 dias. Excetuando-se 1 caso que culminou em óbito em menos de 72 horas, o tempo médio subiria para 46,3 dias. A taxa de óbito foi de 30,77%. O grupo das lesões nãoAP não apresentou casos de trombose venosa profunda. Necessitou de 34 procedimentos de desbridamento em 18 (52,9%) pacientes, e 19 enxertias em 14 (41,17%) pacientes. Houve perda de enxertia em 2 (5,9%) pacientes. A prevalêcia de insuficiêcia respiratória foi de 10 (29,4%) casos, sendo necessária uma média geral de 3,79 dias de entubação orotraqueal. Dentro do grupo de 10 casos, o valor da relação PO2/FiO2 médio 250,02, e o tempo médio de IOT foi de 12 dias. Insuficiêcia renal ocorreu em 3 (8,8%) casos. Ureia média após 48h foi de 33,55 e creatinina média após 48 horas foi de 1,23. Relação ureia/creatinina nas 48 horas média foi de 29,02. O clearance estimado de creatinina foi de 104,21 ml/minuto. Necessidade de tratamento com antibióticos de amplo espectro em 23 (67,6%) casos. A dosagem da PCR média após 24 horas foi de 16,68, e a leucometria média após 24 horas foi de 12,84. O tempo médio de internação foi de 26,26 dias. Excetuando-se 1 caso que culminou em óbito em menos de 72 horas, o tempo médio subiria para 27,06 dias. A taxa de óbito foi de 17,64%.


CONCLUSÃO

1. O grupo QAPs tem faixa etária jovem, sexo feminino, utilização de álcool como agente e antecedente de depressão; 2. A morbidade parece ser maior verificada principalmente pelo elevado índice de insuficiêcia respiratória grave, lesões profundas que requerem tratamento cirúrgico (terceiro grau) e tempo médio de internação maior. O índice de mortalidade também foi maior; 3. Trata-se de questão de saúde pública, que só pode ser efetivamente resolvida buscando abordar quadros depressivos com mais êfase e tentando diminuir a disponibilidade do álcool líquido, em especial o doméstico.

 

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