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Relatos de Caso - Ano 2009 - Volume 24 - Número 4

RESUMO

Queimaduras elétricas em lábios são raras (5,6% - 7% dos casos de queimadura elétrica), mesmo em crianças, sendo o sexo masculino duas vezes mais atingido. Por serem incomuns, são de difícil e contraditório manejo no atendimento inicial e no tratamento das sequelas. No presente trabalho é descrito um caso de queimadura elétrica em lábio em uma paciente de 2 anos. Foi submetida a tratamento cirúrgico 10 dias após a queimadura e apresentou resultado estético e funcional satisfatório após 8 meses de evolução.

Palavras-chave: Queimaduras por corrente elétrica. Lábio/lesões. Boca/lesões. Criança.

ABSTRACT

Electric burn injuries in lips are rare (5.6% - 7% are the range of occurrences), even in children, never the less statistics shows that male patients are two times more likely to suffer this burns. Due to the fact, that this cases are uncommon they often have difficult and contradictory first aid protocols, as well as in the following treatment. This text reports a two-year-old-female patient who had a lip burn injury. The patient had suffered a surgical proceeding 10 days after the burn took place and also had presented a satisfactory functional evolution, 8 months later.

Keywords: Burns, electric. Lip/injuries. Mouth/injuries. Child.


INTRODUÇÃO

A queimadura elétrica em lábios é uma entidade rara, com incidência variável de 5,6% a 7% dos casos de queimadura elétrica1,2. Na infância é ainda mais incomum, frequentemente relacionada a acidentes domésticos1. As crianças do sexo masculino são atingidas duas vezes mais do que as do sexo feminino, em decorrência das diferenças de comportamento relacionadas a fatores culturais, como a maior vigília dispensada às crianças do sexo feminino3. A faixa etária prevalentemente acometida é do primeiro ao quarto ano de vida, com pico de incidência no segundo ano1,3. A causa mais associada a essa afecção é o contato direto dos lábios com o fio elétrico, estando a profundidade da lesão relacionada com a voltagem, a amperagem, o tipo de corrente, o tempo de exposição e a resistência tecidual. A voltagem de 220V causa maiores danos pelo maior efeito térmico. A corrente alternada é mais perigosa que a contínua, em virtude da tetania induzida. A pele úmida e as mucosas são boas condutoras de eletricidade, sendo as lesões labiais, em geral, profundas1. Inicialmente a queimadura apresenta-se esbranquiçada e indolor. O edema máximo é alcançado nas primeiras 12-48 horas4. A região do lábio atingida varia, sendo as queimaduras comissurais de mais difícil manejo. Alguns autores relatam incidência de 45% a 80% de acometimento das comissuras1. As lesões podem ser classificadas quanto à área atingida (Marchac), quanto às características agudas (Pitanguy) ou quanto à gravidade (Thomas) (Tabela 1)1. As classificações objetivam nortear o tipo de tratamento a ser adotado e a prevenção das sequelas, um desafio nos casos de queimaduras de lábio.



RELATO DO CASO

Paciente de 2 anos, sexo feminino, procedente de Uberaba-MG, admitida no Hospital Escola da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em 4/9/2007, com história de queimadura elétrica em lábio inferior há 10 dias, por contato direto com fio elétrico de um abajur (Figura 1). A responsável referia atendimento imediato após o fato em outro serviço, onde foi realizada sutura primária da lesão, na tentativa de dirigir o processo cicatricial. Houve deiscência da sutura no terceiro dia. Apresentava edema local, com lesão em 2/3 do lábio inferior e acometimento da transição cutâneo-mucosa. Não havia acometimento de comissura. Não apresentava alteração funcional do lábio inferior, embora a fala e a alimentação estivessem dificultadas pelo edema e pela dor. A paciente foi submetida a debridamento da lesão, com posterior sutura por planos (Figura 2), finalizada com plastia em Z na pele (Figura 3), como tentativa de impedir a retração do vermelhão. A paciente evoluiu satisfatoriamente no pós-operatório imediato, recebendo alta no terceiro dia após o procedimento. Permaneceu em acompanhamento ambulatorial, com reabilitação funcional total e com resultado estético favorável. Após oito meses de seguimento, percebe-se uma discreta microstomia de lábio inferior, com transição cutâneo-mucosa bem posicionada e cicatriz de plastia em Z com bom aspecto (Figura 4).


Figura 1 - Aspecto da queimadura 10 dias após o trauma.


Figura 2 - Sutura da lesão por planos.


Figura 3 - Plastia em Z na pele.


Figura 4 - Pós-operatório tardio (8 meses).



DISCUSSÃO

A queimadura elétrica em lábios, especialmente durante a infância, apresenta-se como um desafio, pela gravidade do trauma elétrico associado e pela grande possibilidade de gerar sequelas.

O paciente pediátrico deve, a princípio, receber o mesmo atendimento de qualquer outro politraumatizado, respeitando os princípios consagrados do ATLS (Advanced Life Trauma Support), de manutenção de vias aéreas pérvias e ressuscitação volêmica adequada1,3,4.

O manejo da queimadura elétrica de lábio em si mostrou-se contraditório com o passar do tempo. O lábio possui função extremamente especializada, sendo difícil recriá-lo ou reconstruí-lo. A principal dificuldade é estabelecer em que momento deve-se instituir procedimentos reparadores, visando sempre à reabilitação funcional. Hyslop, em 1957, propôs uma excisão isolada e precoce da lesão, após as 12 primeiras horas da queimadura1,2. Na mesma época, Frank e Fleury propuseram um tratamento mais conservador, já que a excisão precoce poderia levar à formação de fibrose. O mesmo conceito foi reafirmado por Pitts, que chamou a atenção para deformidades do crescimento ósseo facial em crianças sequeladas por queimaduras de lábios1,2. Thompson e Bardach observaram que o tratamento precoce é, na maioria da vezes, acompanhado de resultados insatisfatórios5. Canady propôs a confecção de uma cicatrização dirigida1. Mais recentemente, Su estabeleceu um tratamento precoce conservador com intervenção cirúrgica após 2 anos para tratamento das sequelas. Barone realizou um estudo retrospectivo, onde percebeu melhora dos resultados tardios com o uso sistemático de conformadores dinâmicos em pacientes com acometimento de comissura1.

Mesmo com a melhora dos resultados funcionais e estéticos com o tratamento mais conservador, as sequelas são bastante comuns e necessitam de intervenção cirúrgica em até 75% dos casos, segundo Fogh-Anderson1,6. As principais sequelas são microstomia comissural e retração cicatricial, podendo a contecer ainda anquilose lingual, perda de dentes e problemas com a expressão facial7. Marchac propôs o tratamento das sequelas estéticas após 7 a 8 anos do trauma, com a utilização de retalho de Abbé-Estlander ou retalho lingual para reequilibrar os lábios1. Su utiliza o vermelhão restante para a reconstrução de lábio inferior e um retalho de mucosa para a reconstrução de lábio superior1. A utilização de retalho lingual tem sido abandonada por não apresentar integração estética de boa qualidade.

É descrito um caso de queimadura elétrica em lábio inferior em uma paciente de dois anos, submetida a tratamento precoce, com sutura por planos, que não apresentou sequelas importantes no pós-operatório tardio. A reabilitação funcional e estética deve-se não só ao tratamento instituído, mas também ao local do lábio acometido e à extensão reduzida da lesão.


CONCLUSÃO

A queimadura elétrica em lábio é uma entidade rara, mas merecedora de atenção, especialmente na infância, já que é passível de causar sequelas graves como alteração no crescimento dos ossos da face, alterações do palato e da oclusão. De forma geral, o tratamento conservador imediato apresenta melhores resultados funcionais e estéticos, quando associado ao tratamento cirúrgico das sequelas. No entanto, a prevenção de acidentes é o fator determinante mais importante na redução no número de sequelas da queimadura elétrica.


REFERÊNCIAS

1. Garson S. Burned lips. Ann Chir Plast Esthet. 2002;47(5):547-55.

2. Thomas SS. Electrical burns of the mouth: still searching for an answer. Burns. 1996;22(2):137-40.

3. Martins CBG, Andrade SM. Queimaduras em crianças e adolescentes: análise da morbidade hospitalar e mortalidade. Acta Paul Enferm. 2007;20(4):464-9.

4. Fenlon S, Nene S. Burns in children. Contin Educ Anaesth Crit Care Pain. 2007;7(3):76-80.

5. Lesavoy MA. Oral commissure burns in children. Plast Reconstr Surg. 1996;97(4):745.

6. Planas J, Cervelli V, Planas G. The retraction of the oral opening in burned patients. Plast Reconstr Surg. 1999;103(3):1082-6.

7. Hashem FK, Al Khayal Z. Oral burn contractures in children. Ann Plast Surg. 2003;51(5):468-71.










1. Residente do Serviço de Cirurgia Plástica da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG.
2. Cirurgião plástico; membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
3. Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Orientador e Chefe do Serviço de Cirurgia Plástica da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG.

Trabalho realizado no do Serviço de Cirurgia Plástica da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG.

Correspondência para:
Cynthia Ottaiano Rodrigues Almeida
Av. Leopoldino de Oliveira, 2757, apto. 400 - Bairro Estados Unidos -
Uberaba, MG - CEP 38066-000
E-mail: cynthia@netsite.com.br

Artigo recebido: 7/7/2008
Artigo aceito: 2/3/2009

 

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