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Artigo Especial - Ano 2015 - Volume 30 - Número 1

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2015RBCP0132

RESUMO

Há 22 anos, um curso informativo de cirurgia plástica para acadêmicos de medicina, promovido pela integração de quatro escolas médicas, três universidades e pela regional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica vem sendo ministrado, contribuindo para a educação médica em Curitiba, uma cidade de dois milhões de habitantes, em uma área metropolitana de aproximadamente três milhões de pessoas. Este curso informativo proporciona uma visão abrangente da especialidade, para que acadêmicos de medicina possam avaliar sua vocação pessoal para o exercício da cirurgia plástica, além de fornecer conhecimentos básicos indispensáveis à formação de qualquer médico. Anualmente o curso é ministrado em 47 horas e ofertado para 120 alunos. O programa inclui 70% de "cirurgia reconstrutiva" e 30% de "cirurgia estética", sendo a maioria dos professores membros titulares da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Nos primeiros 19 anos de atividade (1992 a 2010), 4,6% dos alunos que concluíram o curso cursaram residência em cirurgia geral, foram admitidos na residência em cirurgia plástica e hoje fazem parte da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. O curso tornou-se um importante instrumento de educação médica, complementando o currículo de quatro escolas médicas e promovendo a cirurgia plástica como especialidade única e indivisível, enfatizando a importância da prova de especialista em cirurgia plástica e a conveniência da escolha e da indicação destes especialistas para a realização de qualquer procedimento no âmbito da cirurgia plástica.

Palavras-chave: Cirurgia plástica; Educação; Educação médica; Ensino.

ABSTRACT

For 22 years, a reproducible introductory overview course on plastic surgery for medical students, cosponsored by four medical schools, three universities and the regional chapter of the Brazilian Society of Plastic Surgery (SBCP), has contributed to medical education in Curitiba, a city of 2 million, and serving a metropolitan population of nearly 3 million people. This course helps medical students determine if plastic surgery is the right choice for them and provides valuable information about the specialty itself that will serve all participants as they go forward into their chosen fields, as plastic surgeons or not. This broad-ranging 47 hour course, limited to 120 students, is fully enrolled every year. Its content is weighted approximately 70% toward reconstructive plastic surgery and 30% toward aesthetic plastic surgery. Most lectures are presented by plastic surgeons who are full members of the SBCP. During its first 19 years of operation, 4.6% of the students completing the course have gone on to a general surgery residency followed by a plastic surgery residency, and are current SBCP members. The course has become a valuable educational and marketing tool for the regional chapter of the SBCP. It promotes the unique scope of the specialty and increases awareness among participants, as well as among their many personal and professional contacts (currently and in the future) about the benefits of becoming fully qualified, board-certified plastic surgeons.

Keywords: Plastic surgery; Education; Education medical; Teaching.


INTRODUÇÃO

O desenvolvimento científico e pessoal é crucial em uma educação realmente completa em cirurgia plástica. Além disso, cursos complementares durante a formação médica têm sido recentemente reconhecidos como importante contribuição para eventual opção e treinamento em cirurgia plástica1.

Há 22 anos, um curso informativo em cirurgia plástica para estudantes de medicina, patrocinado por quatro faculdades de medicina, três universidades e pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), tem sido administrado em Curitiba, uma cidade de 2 milhões de habitantes, em uma área metropolitana de aproximadamente 3 milhões de pessoas. Esse curso auxilia estudantes de medicina a determinar se a cirurgia plástica é a escolha certa para o que eles pretendem na carreira e também disponibiliza informações valiosas sobre essa especialidade beneficiando todos os participantes conforme áreas que escolheram, seja como cirurgiões plásticos ou não. O curso tornou-se uma ferramenta de educação e marketing importante para o capítulo regional da SBCP, promovendo escopo exclusivo da especialidade que aumenta a conscientização entre os participantes, bem como entre seus diversos contatos pessoais e profissionais (atuais e futuros), em relação aos benefícios de tornar-se cirurgião certificado e qualificado.

A prática médica e a área de cirurgia plástica no Brasil

O curso de medicina no Brasil tem duração de 6 anos e é iniciado logo após a conclusão do ensino médio. A formação inclui 4 anos de teoria e aulas práticas seguidas de 2 anos de internato que inclui as áreas de cirurgia geral, medicina de emergência, pediatria, clínica médica, obstetrícia e medicina de família.

Ao fim do internato, os estudantes que concluem essa etapa com sucesso recebem o diploma de medicina e estão aptos para praticar medicina. Os jovens médicos podem atuar em qualquer área da medicina, porém apresentam-se somente como médicos ou clínico geral.

Para declarar-se como cirurgião plástico (ou de outra especialidade) o médico deve ser certificado na especialidade. O Conselho Federal de Medicina (C.F.M.) no Brasil proíbe os médicos de (e geralmente os denunciam por tal) mostrar especialidade médica não reconhecida: atualmente, a medicina estética e cosmética ou cirurgia estética não são especialidades médicas reconhecidas no Brasil.

No Brasil, a cirurgia plástica facial também não é reconhecida como uma especialidade2, todavia a cirurgia crânio-maxilo-facial é considerada uma subespecialidade e pode ser declarada por cirurgiões plásticos, cirurgiões de cabeça e pescoço ou otorrinos após aprovação nas respectivas certificações. A prática de cirurgia plástica no Brasil sem especialidade e certificação, apesar de possível, é passível de ações legais devido a prática indevida e também condenação judicial no caso de resultados cirúrgicos adversos.

Para realizar exame da SBCP é necessário ter completado residência em cirurgia geral de pelo menos 2 anos e residência em cirurgia plástica de pelo menos 3 anos em um dos 83 hospitais credenciados pela SBCP.

Todos os anos aproximadamente 233 novos residentes são certificados. O programa de residência, exame escrito e oral conduzido pela SBCP inclui tópicos como queimaduras, deformidades congênitas, trauma, reconstrução pós-câncer e áreas técnicas desde cirurgia da mão, microcirurgia e até cirurgia crânio-maxilo-facial.

Por que oferecer uma visão geral?

Em muitas faculdades brasileiras de medicina, a informação em relação à cirurgia plástica para estudantes de medicina é limitada por poucas palestras sobre queimaduras, deformidades congênitas, trauma e aplicação de retalho e enxerto para diversos procedimentos reconstrutivos.

O foco atual em cirurgia cosmética tanto pela mídia de massa e quanto pelo marketing em medicina reforça uma distorção acadêmica e publicitária, e até mesmo, uma visão superficial da especialidade de cirurgia plástica.

De 1992 até hoje, alguns dos principais autores têm promovido curso informativo de cirurgia plástica para estudantes de medicina3 por meio do CIPLAST - Curso Interuniversitário de Cirurgia Plástica.

O curso foi desenvolvido especialmente para apresentar e promover visão mais clássica e realista da cirurgia plástica, enfatizando a cirurgia plástica como especialidade cirúrgica onde a reconstrução encontra a estética e a estética melhora a reconstrução.

Estruturação do curso

Em colaboração com o capítulo regional da SBCP, 15 membros, incluindo professores de 4 faculdades de medicina e professores convidados, participam do programa como palestrantes do curso informativo de cirurgia plástica (Quadro 1), realizado em Curitiba, cidade que abriga 180 cirurgiões plásticos certificados. Um advogado e outros seis especialistas não relacionadas à cirurgia cosmética também são convidados como palestrantes complementares (Quadro 2).






As universidades que sediam o curso oferecem auditório e estrutura, também como, emitem certificado para os estudantes e internos que completam o curso com frequência mínima de 75%.

Anualmente, por 24 semanas, uma vez por semana, das 20:00 às 22:00 horas, 120 estudantes de 4 faculdades de medicina se reúnem para aprender com os palestrantes por meio de suas experiências profissionais e pessoais, temas relacionados com a cirurgia plástica. Com base nesses encontros, muitos estudantes entusiasmados solicitam visita à sala cirúrgica do cirurgião-palestrante. Os cirurgiões recebem os estudantes em suas clínicas particulares e hospitais, destacando, portanto, sua experiência individual, conceitos da especialidade e da SBCP.

Além das palestras listadas abaixo, o curso inclui workshop de prática em sutura e uso de enxertos e retalhos em modelo animal (suínos)4,5.

Como colaboração adicional entre estudantes de medicina e palestrantes, a CIPLAST também desenvolveu quatro CD-ROMs contendo aulas, publicados em 2002, 2004, 2006 e 2008, e um livro intitulado CIPLAST - Curso Informativo Anual de Cirurgia Plástica3 (ISBN 9788591059706), publicado em 2010. O investimento para o curso é de aproximadamente R$250,00 por ano e a inscrição incluía cópia do livro ou CD-ROM.

Como ação de continuidade e incentivo de maior participação, no fim do curso 3, estudantes de cada uma das 4 faculdades de medicina são convidados para fazer parte de comitê organizador composto por 12 administradores para o curso CIPLAST do ano subsequente. Um dos estudantes entre os organizadores também é escolhido como coordenador do comitê organizador sob a supervisão do diretor do programa. Esses estudantes, tornando-se ou não cirurgiões plásticos, adquirem excelente experiência para participação futura e habilidade de liderança nas sociedades de suas especialidades, e também liderança acadêmica.


RESULTADOS

Dos 2.640 estudantes de medicina que participaram do curso, durante o período 1992-2013 (22 anos), 2.130 (80,6%) completaram o programa com frequência mínima de 75% + (Figura 1).


Figura 1. 2.130 estudantes (80,6%), dos 2.640 que realizaram o curso entre 1992 e 2013, completaram o curso com frequência mínima de 75%.



Os estudantes que cursaram o programa desde 2011 não tiveram tempo suficiente para completar a residência em cirurgia plástica (já que pelo menos dois anos em cirurgia geral é pré-requisito para residência em cirurgia plástica). Dos 2.280 estudantes inscritos entre 1992 e 2010, 1.907 (83,6%) completaram o curso com a frequência mínima de 75% (Figura 2). Entre eles, 88 estudantes (4,6%) tornaram-se cirurgiões plásticos certificados ou atualmente são residentes em cirurgia plástica (Figura 3).


Figura 2. 1.907 estudantes (83,6%), dos 2.280 que realizaram o curso entre 1992 e 2010, completaram o curso com frequência mínima de 75%.


Figura 3. 88 estudantes de medicina (4,6%) de 1.907 que realizaram o curso entre 1992 e 2010 com frequência mínima de 75%+ são atualmente cirurgiões plásticos certificados ou residentes em cirurgia plástica.



CONCLUSÕES
1. Este curso tem promovido escopo clássico e único da especialidade de cirurgia plástica sem trazer dicotomia problemática entre cirurgia plástica estética e cirurgia plástica reconstrutiva.

2. O curso tem auxiliado estudantes a determinarem em que extensão suas habilidades e interesses são compatíveis com seu treinamento e prática futura em cirurgia plástica. O curso mostra as realidades e exigências da cirurgia plástica abordando as preocupações legais, necessidades do paciente e possíveis complicações. Essa perspectiva ajuda identificar aqueles que podem alcançar sucesso ou não no desenvolvimento das atividades que a especialidade exige. O curso incentiva estudantes mais inclinados à cirurgia plástica a obter treinamento apropriado e tradicional em residência e obter certificação.

3. O conhecimento e habilidades adquiridas por meio do workshop de cirurgia de pele são contribuições chaves para o desempenho do estudante de medicina em postos de atendimento médico de suporte primário no Brasil e hospitais, onde se espera dos estudantes de medicina a realização de suturas e auxilio com procedimentos cirúrgicos, sendo essas atividades iniciadas em geral no quarto ano do curso de medicina.

4. O curso disponibiliza orientação contra e tenta inibir a proliferação de especialidades não reconhecidas e não cirurgiões plásticos atuando no setor de estética/cosmética. Todo ano, cento e vinte estudantes completam o curso e levam importantes entendimentos sobre clínica e mensagem de que a cirurgia plástica deve ser realizada por cirurgiões plásticos qualificados.

5. O curso amplia a reputação e competência da SBCP, da Comissão Brasileira de Cirurgia Plástica, e dos cirurgiões plásticos certificados e membros.

6. Os estudantes que eventualmente não escolham a especialidade de cirurgia plástica levam do curso informações úteis para qualquer disciplina cirúrgica, além de visão realística da cirurgia plástica; muito além da percepção popular puramente cosmética.

7. A reprodução desse tipo de curso com visão geral em relação à cirurgia plástica, ou ainda, sobre outra especialidade, pode constituir ferramenta valiosa para auxiliar estudantes na decisão de qual área seguir em sua carreira, além de ser recurso valioso para as sociedades de especialidades médicas.

AGRADECIMENTOS

Os autores gostariam de agradecer todos os palestrantes por sua dedicação e envolvimento com o CIPLAST nos últimos 22 anos, também como as universidades participantes/patrocinadoras, incluindo a Faculdade de Medicina da Universidade Positivo; Pontifícia Universidade Católica do Paraná; Faculdade Evangélica do Paraná; Universidade Federal do Paraná; Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e os mais de 2.000 estudantes, residentes e organizadores que contribuíram para o sucesso do programa.


REFERÊNCIAS

1. Aguiar LFS, Méndez CKI, Gonçalves EG, Gomes FP, Gesser Cardoso FR, Nozaki GY, et al. Medical surgery leagues. Aesthetic Plast Surg. 2013;37(2):485-8. http://dx.doi.org/10.1007/s00266-012-0043-7. PMid:23344464.

2. Fernandes JW. A especialidade cirurgia plástica. In: Fernandes JW, editor. Cirurgia plástica bases e refinamentos. 2nd ed. Curitiba: Primax; 2012. p. 29-32.

3. Fernandes JW, Pereira LC. CIPLAST - Curso Informativo Anual de Cirurgia Plástica. Curitiba: JWF; 2010.

4. Purim KSM. Oficina de cirurgia cutânea. Rev Col Bras Cir. 2010;37(4):303-5. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912010000400012. PMid:21085849.

5. Purim KSM, Santos LDS, Murara GT, Maluf EMCP, Fernandes JW, Skinovsky J. Avaliação de treinamento cirúrgico na graduação de medicina. Rev Col Bras Cir. 2013;40(2):152-6. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912013000200012. PMid:23752643.










1. Universidade Positivo, Curitiba, PR, Brasil
2. Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR, Brasil

Instituição: Trabalho realizado na Universidade Positivo, Curitiba, PR, Brasil.

Autor correspondente:
Julio Wilson Fernandes
Universidade Positivo
Avenida Getúlio Vargas, 2079
Curitiba, PR, Brasil CEP 80250-180
E-mail: cirurgiaplasticajwf@uol.com.br

Artigo submetido: 27/1/2014.
Artigo aceito: 4/3/2014.

 

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