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Editorial - Ano 2014 - Volume 29 - Número 2

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2014RBCP0032

Li na edição de janeiro da revista Plastic and Reconstructive Surgery um editorial que me deixou bastante preocupado com a evolução das publicações médicas, assunto que requer amplo debate em nossa especialidade. Entre os tópicos do artigo, Rod J. Rohrich e Daniel Sullivan debatem sobre as tendências nas publicações médicas e os caminhos que as editoras estão tomando para realizá-las.

É uma realidade que muitos dos melhores jornais diários americanos estão parando de imprimir a sua clássica versão em papel e vêm oferecendo aos assinantes apenas a versão digital, que pode ser acessada, por meio de computador, tablet ou celular, em qualquer lugar do mundo.

Semanalmente, temos recebido mensagens eletrônicas de revistas pedindo-nos para lhes enviar artigos científicos, a fim de que adquiram conteúdo e estabeleçam credibilidade. A grande maioria dessas novas revistas é chamada de «livre acesso». (Open Access).

Periódicos de «livre acesso» existem há quase 20 anos e são uma tendência mundial e incontestável na literatura médica. Lutar contra essa tendência significa "parar no tempo", como aconteceu no passado quando alguns duvidavam do progresso dos computadores. Novas gerações tornaram o meio virtual a principal fonte de ganho de conhecimento e de entretenimento.

Esses periódicos de acesso "aberto" representam um novo modelo de negócios; existem 7706 deles listados no Diretório de livre acesso, com quase 800 mil artigos publicados. Todos esses periódicos estão à disposição no PubMed, e há uma projeção de que 60% de todo o conteúdo das revistas científicas será publicado no modo "livre acesso" até 2019. Um dos primeiros periódicos de acesso aberto na medicina, o Journal of Medical Internet Research, foi criado em 1998 e hoje tem um Fator de Impacto de 4,7.

Alguns benefícios da publicação de acesso aberto incluem o conhecimento gratuito do conteúdo científico e o acesso irrestrito a ele, bastando para isso apenas uma conexão com a internet. As bibliotecas no mundo inteiro vão economizar uma fortuna com os atuais gastos em assinaturas dos modelos impressos.

O principal argumento em favor da publicação "aberta" é o patrocínio de pesquisas com fundos públicos. Publicação em acesso "aberto" tem sido uma exigência de um grande e crescente número de agências de fomento e instituições de pesquisa, as quais concluem que, se o dinheiro público foi gasto para financiar a investigação, o resultado da pesquisa deve estar disponível para a população.

A partir de dezembro de 2011, 170 instituições de pesquisa e 51 agências de fomento obrigavam a publicação em periódicos de livre acesso, e esse número está crescendo rapidamente. Recentemente (julho de 2012), o Reino Unido solicitou que todas as pesquisas financiadas pelas suas principais agências de fomento, dentro do prazo de seis meses da sua publicação, estejam disponíveis de forma livre e aberta para o mundo (Open Access).

As diferenças do modelo de Acesso Livre e da impressa tradicional são:

1) As pesquisas de Acesso Livre são revisadas nos mesmos critérios e moldes do modelo impresso.

2) O autor ou a agência de fomento pagará para ter o artigo disponível mundialmente no modelo Livre, mas todo o conteúdo do artigo estará disponível a qualquer pessoa com acesso à Internet sem ela pagar nada.

3) No modelo digital "Open Access", o artigo estará à disposição para consulta no site em menos de três semanas após a sua aprovação, enquanto no modelo impresso ele leva em torno de seis meses para atingir o assinante.

A Revista Plastic and Reconstructive Surgery lançou a sua versão "Acesso Livre" PRS-GO (Global Open) e disponibilizará aos cirurgiões plásticos de todo o mundo acesso livre a suas publicações.

O questionamento fundamental de todos os cirurgiões plásticos brasileiros é: poderá o pesquisador publicar fotos de "Antes e Depois" em periódicos científicos de acesso livre, uma vez que qualquer pessoa com acesso a um computador poderá ver e copiar fotos íntimas de pacientes submetidos a cirurgias plásticas? Fui convidado a fazer parte da PRS-GO e tenho um artigo aprovado para publicação nesse meio eletrônico de "livre acesso". Fiz um pedido para aguardarem o parecer do nosso Conselho Federal de Medicina, uma vez que haverá fotos de rinoplastias com antes, durante e depois. Argumentei que tenho autorização por escrito dos pacientes e a revista tem cunho científico, mas de acesso liberado para qualquer pessoa.

A resposta por escrito do Conselho Federal de Medicina foi que, se essa publicação sair, eu serei SIM punido pelo Conselho.

Do ponto de vista filosófico, há certa razão nessa decisão. Como ficaria uma criança que teve uma fissura labial ou outra malformação frente a seus cruéis colegas que com o celular podem achar fotos da criança antes e depois de uma reparação? O "Bulling" é uma realidade e a autorização dos pais, contentes com o resultado, não fere o direito da criança à privacidade médica?

Ficará o cirurgião plástico do Brasil vetado de publicar em revistas de elevado fator de impacto internacional que ofereçam "acesso livre"? E, desse modo, certamente estará estagnado na evolução natural dos periódicos médicos.

Prof. Dr. Gal Moreira Dini,
Docente das Disciplinas de Cirurgia Plástica da UNIFESP-EPM e PUC-SP.
Membro do Corpo Editorial da PRS-Global Open.


REFERÊNCIAS

1. Bryn Mawr. Classical Review. Available at: http://bmcr.brynmawr.edu. Accessed August 29, 2012.

2. Postmodern Culture. Available at: http://muse.jhu.edu/journals/postmodern_culture. Accessed August 29, 2012.

3. Psycoloquy. Available at: http://www.cogsci.ecs.soton.ac.uk/cgi/psyc/newpsy. Accessed August 29, 2012.

4. The Public-Access Computer Systems Review. Available at: http://journals.tdl.org/pacsr. Accessed August 29, 2012.

5. Journal of Medical Internet Research. Available at: http://www.jmir.org/. Accessed August 29, 2012.

6. Antelman K. Do open-access articles have a greater research impact? Coll Res Libr News 2004;65:372-382.

7. Eysenbach G. Citation advantage of open access articles. PLoS Biol. 2006;4:e157.

8. Rohrich, Rod J. Sullivan, Daniel. Trends in Medical Publishing: Where the Publishing Industry Is Going. Plastic and Reconstructive Surgery, Number 1, Volume 131; January 2013.










PhD - Prof. Afiliado, Prof. Orientador PG, Chefe do setor de Rinoplastia, Disciplina: Cirurgia Plástica - UNIFESP

Instituição: Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina e PUC-SP.

Autor correspondente:
Gal Moreira Dini
Rua Vicência Faria Versage, 318
Sorocaba, São Paulo - CEP: 18031-080

Artigo submetido: 6/3/2013
Artigo aceito: 10/3/2013

 

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