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Artigo Original - Ano 2011 - Volume 26 - Número 3

RESUMO

Introdução: Fatores que diferenciam a cicatrização fetal e a do adulto instigam a possibilidade de manipulação das soluções de continuidade da pele. Este estudo teve como objetivo avaliar se o uso de células-tronco adultas do tecido adiposo é benéfico à cicatrização da pele. Métodos: Estudo controlado, randomizado, para o qual foram selecionadas 18 pacientes, considerando-se critérios de inclusão e exclusão. As células-tronco adultas utilizadas eram autólogas, extraídas do tecido adiposo da região infraumbilical, precedendo a realização da abdominoplastia. Essas células, antes da síntese da pele, foram implantadas na derme da ferida operatória, na região suprapúbica. A avaliação dos resultados foi realizada com base na escala de Draaijers, por três avaliadores médicos cegados, e pelas próprias pacientes, por autoavaliação. Foi realizada, também, avaliação fotométrica por fotografia digital. Resultados: Dentre as 18 pacientes operadas, sob o ponto de vista cirúrgico, 17 (94,4%) apresentaram resultados excelentes ou bons e uma (5,5%) apresentou deiscência de sutura, considerado mau resultado. Quanto à cicatrização da pele na área pesquisada, à avaliação fotométrica, não houve diferença estatisticamente sig­ni­fi­cante; à autoavaliação pelas pacientes, os resultados atingiram nível de significância a favor da intervenção com células-tronco (P = 0,12); e à avaliação pelos médicos, foi atingido nível de significância a favor da intervenção por células-tronco (P = 0,003). Considerando-se todas as avaliações realizadas (médicos, pacientes e fotométrica), foi encontrada diferença estatisticamente significante favorável ao implante de células-tronco adultas do tecido adiposo (P < 0,001). Conclusões: Os resultados da cicatrização da pele, após implante de células-tronco adultas derivadas de tecido adiposo, foram satisfatórios.

Palavras-chave: Células-tronco. Cicatrização. Abdome/cirurgia.

ABSTRACT

Background: The differences between fetal and adult scars suggest the possibility of manipulating skin scarring outcomes. This study aimed to assess whether the use of adult stem cells from adipose tissue is beneficial to skin healing. Methods: This was a randomized controlled study for which 18 patients were selected based on inclusion and exclusion criteria. The adult stem cells used were autologous and were extracted from infraumbilical adipose tissue prior to abdominoplasty. These cells were implanted into the surgical wound dermis in the suprapubic region before skin synthesis. The results were assessed blindly based on the Draaijers scale by three physicians and by the patients themselves in a self-assessment. Photometric assessment by digital photography was also performed. Results: Among the 18 operated patients, considering the surgical result, 17 (94.4%) had excellent or good results and one (5.5%) had wound dehiscence, which was considered a bad result. Considering skin healing in the searched area, there was no statistically significant difference in the photometric evaluation; in both the self-assessment by the patients and the physicians' assessment, the results were significantly in favor of intervention with stem cells (P = 0.12 and P = 0.003, respectively). Consideration of all assessments (physicians, patients and photometric) found a statistically significant difference in favor of the implantation of adult stem cells from adipose tissue (P <0.001). Conclusions: Skin healing results after implantation of adult stem cells derived from adipose tissue were satisfactory.

Keywords: Stem cells. Wound healing. Abdomen/surgery.


INTRODUÇÃO

Desde a época dos egípcios, os cirurgiões se preocupam com as feridas e sua cicatrização, como foi evidenciado no papiro de Edwin S. Smith1. O fechamento da ferida operatória é condição básica para o sucesso da cirurgia.

É imprescindível ao médico o conhecimento do processo de cicatrização para bem manipular os tecidos, a fim de conseguir um resultado ideal. As fases da cicatrização são divididas em inflamatória, proliferativa e de maturação2,3. A fase inflamatória ou reativa dura em torno de quatro dias e tem início a partir do momento em que ocorre a lesão. A fase proliferativa ou regenerativa, que acontece desde o quarto dia, perdura por cerca de dez dias. A derradeira fase, a de maturação, é a mais prolongada e pode ir do oitavo dia ao sexto mês ou mais. Nessa fase, a tensão da cicatriz aumenta rapidamente em uma semana a seis semanas, podendo atingir seu platô de maturação em torno de um ano de evolução.

Em um conjunto tão complexo de acontecimentos, vários fatores podem interferir no processo de cicatrização e em sua evolução, como infecção, isquemia tecidual local, diabetes melito, radiação, desnutrição, medicamentos exógenos e deficiência de sais minerais e vitaminas3.

A cicatriz pode ser considerada adequada, inadequada ou proliferativa. Esses resultados são determinados pela síntese do colágeno e pelo equilíbrio de sua degradação. Se esse equilíbrio se inclinar em qualquer direção, o resultado não será satisfatório. Nas feridas crônicas, a degradação de colágeno é maior que sua síntese, enquanto nas cicatrizes proliferativas, hipertróficas ou queloidais, ocorre o inverso, ou seja, a deposição do colágeno excede a degradação3.

Estudos em fetos humanos, operados in uterus, evidenciaram que, após o nascimento, as cicatrizes eram mínimas ou imperceptíveis4. Lin et al.5 concluíram que os fibroblastos fetais permaneciam fiéis a seus fenótipos, mesmo quando transplantados para o adulto. Esse processo cicatricial se desenvolve com ausência inflamatória, tendo como resultado cicatriz não aparente. Segundo Estes et al.6, na ferida do feto, os fibroblastos não desenvolvem estado de ativação (miofibroblastos) até uma fase tardia da gestação. Bullard et al.7 evidenciaram que os fibroblastos dérmicos apresentam colagenase intersticial bem mais significativa nas feridas dos fetos que nas dos adultos. Há evidências de que ocorrem menor inflamação e diminuição do acúmulo de colágeno na cicatrização fetal, comparativamente ao adulto. Esses fatos instigam a possibilidade de manipulação da solução de continuidade da pele no adulto, visando a limitar a intensidade do processo inflamatório e, assim, obter melhor resultado da cicatriz.

Cirurgiões plásticos, em especial, têm sua atenção direcionada para a cicatrização cutânea. Em suas intervenções cirúrgicas, procuram dissimular as cicatrizes, posicionan­do-as de acordo com as linhas de força da pele, em locais que não possam ser visualizadas ou que sejam minimamente perceptíveis. Quando as cicatrizes estão situadas em locais constantemente expostos, como na face, utilizam condutas ou medidas terapêuticas e cosméticas para dissimular, tornando-as menos perceptíveis3,8-11.

Os progressos nos estudos da biologia celular e molecular poderão causar grande impacto no entendimento do processo cicatricial e sua aplicação clínica. As pesquisas com células-tronco estão fazendo avançar o conhecimento para entender como as células danificadas são substituídas por células sadias, em organismos adultos12,13. Essa é uma área de intensa pesquisa acadêmica e aplicada. A utilização de células-tronco para o tratamento de doenças, conhecida como medicina regenerativa13, tem evoluído muito. As células-tronco são fundamentais, não só para coordenar a formação dos órgãos desde a fase embrionária até o indivíduo adulto, mas também pelo seu papel na regeneração e no reparo dos tecidos.

Embora existam vários critérios propostos para definir células-tronco, resumidamente, elas devem ser células indiferenciadas capazes de proliferação, autorrenovação, produção de inúmeras células funcionalmente diferenciadas, e regeneração de tecidos após uma lesão14. Do ponto de vista terapêutico, considerando aspectos éticos e legais, pesquisadores têm realizado seus estudos com células-tronco, principalmente aquelas derivadas do estroma da medula óssea15-18. Estudos mais recentes comprovaram que essa população celular também pode ser isolada do tecido adiposo19-22, coletado por meio de lipoaspiração23,24. Alguns autores preferem não utilizar o termo stem cells, referindo-se a esse material do tecido adiposo como processed lipo-aspirate (PLA) cells ou adipose derived adult stem cells (ADAS)20,21,25,26.

As facilidades de obtenção estimulam a pesquisa em ensaios clínicos com células-tronco autólogas, extraídas do tecido adiposo. O presente estudo tem por objetivo avaliar as repercussões dessas células na cicatrização da pele humana.


MÉTODO

Aspectos Éticos


Esta pesquisa foi aprovada, em 24/11/2005, Protocolo no 05/02789, pela Comissão de Ética do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS - Porto Alegre, RS).

Todas as pacientes que participaram deste estudo assinaram Termo de Consentimento Informado.

Procedimentos

Nas pacientes desta pesquisa, foram utilizadas, exclusivamente, células obtidas de tecido adiposo autólogo. Sua implantação não causou modificações na sequência cirúrgica nem acréscimo significativo na duração do procedimento proposto.

A coleta do tecido adiposo era realizada em período máximo de 5 minutos, previamente à abdominoplastia. O implante das células-tronco adultas do tecido adiposo teve duração similar. A separação dessas células, com duração semelhante à da abdominoplastia, foi efetuada no Centro de Terapia Celular do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUCRS, simultaneamente ao ato cirúrgico.

Os critérios de inclusão considerados foram: pacientes do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital São Lucas da PUCRS, com indicação de abdominoplastia, pele branca, sexo feminino, faixa etária entre 30 e 45 anos, que já tivessem filhos e sem estrias na região supraumbilical.

Os critérios de exclusão considerados foram: tabagismo, história de cicatriz hipertrófica ou queloide, diabetes melito, qualquer doença da pele ou tecido conjuntivo, cicatriz supraumbilical prévia, uso prolongado de corticoide, quimioterapia ou radioterapia prévias, pós-emagrecimento na obesidade, infecção, hematoma, seroma ou deiscência no pós-operatório de abdominoplastia, e desistência da participação de paciente no decorrer da pesquisa.

Todas as pacientes que fizeram parte deste estudo foram operadas pelo mesmo cirurgião, e em todas foi executada a mesma técnica cirúrgica27,28, que consistiu de lipoaspiração da região infraumbilical seguida de abdominoplastia. Esses dois procedimentos, pelo fato de serem realizados no mesmo ato cirúrgico, facilitaram a produção da cicatriz objeto desta pesquisa e a obtenção do tecido adiposo de onde foram retiradas células-tronco adultas.

Previamente à abdominoplastia, foram colhidos, por lipoaspiração, 30 ml de tecido adiposo da região infraumbilical, onde há importante concentração de células-tronco adultas29. A lipoaspiracão foi realizada com seringa descartável de 50 ml e cânula com calibre de 4 mm e 25 cm de comprimento. Para evitar qualquer modificação no tecido adiposo, esse procedimento foi executado sem nenhuma infiltração no local (dry procedure)24. Esse tecido adiposo foi encaminhado, na própria seringa e em condições estéreis, para o Centro de Terapia Celular do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUCRS, para que se procedesse à extração das células-tronco adultas, enquanto a cirurgia era realizada (Figura 1).


Figura 1 - Lipoaspiração com seringa. Em A, demarcação do retalho de pele e tecido celular subcutâneo a ser ressecado. Em B, cânula para lipoaspiração e seringa com tecido adiposo.



Técnica Cirúrgica

Todas as pacientes foram operadas sob anestesia peridural, com punção no espaço peridural L3-L4, injetando-se 150 mg de cloridrato de ropivacaína 0,75% e 100 mg de citrato de fentanila. No transoperatório, a paciente foi sedada com midazolan 15 mg, por via endovenosa, em doses fracionadas.

Na abdominoplastia, foi seguida a mesma sequência cirúrgica, em todos os casos: ressecção prévia, em monobloco, do retalho de pele e tecido celular subcutâneo da região infraumbilical, na área que vai da cicatriz umbilical à região pubiana, situada entre as duas espinhas ilíacas ântero-superiores27,28 (Figura 2). Em seguida, foi realizado o descolamento justa-aponeurótico do retalho dermogorduroso supraumbilical, até a altura das costelas e apêndice xifoide. Na sequência, foi reposicionada a parede musculoaponeurótica do abdome por meio de plicatura com pontos separados de mononáilon 2.0 (Ethicon®). A cicatriz umbilical foi fixada, com pontos de mononáilon 4.0 (Ethicon®), na parede musculoaponeurótica e suturada com o mesmo fio, na pele do retalho dermoadiposo supraumbilical que fora tracionado até a borda pubiana da incisão operatória, em sua nova posição. Para concluir a abdominoplastia, foi realizada a síntese das bordas superior e inferior da ferida operatória, em todos os planos. Dessa síntese resultava a cicatriz da abdominopastia, na qual foi realizada a pesquisa com células-tronco adultas de tecido adiposo (Figura 3).


Figura 2 - Ressecção prévia: retalho infraumbilical ressecado, em monobloco, previamente ao descolamento supraumbilical.


Figura 3 - Cicatriz suprapúbica: local do uso de células-tronco adultas do tecido adiposo em ambas as bordas da ferida operatória, randomizada em relação aos lados da linha média.



Na sutura da pele, sempre foi seguida uma mesma conduta, ou seja, fio mononáilon 4.0 (Ethicon®) na camada subdérmica e fio mononáilon 3.0 (Ethicon®) no tecido celular subcutâneo e na sutura intradérmica.

Em todas as pacientes, um dreno por sucção 1/4 (Drenoplass®) foi colocado, por contraincisão inferior, na região pubiana. O propósito dessa drenagem foi evitar coleções que pudessem distender a pele e alterar a tensão nas linhas de sutura no local da pesquisa.

Obtenção das Células-Tronco Adultas do Tecido Adiposo

A extração das células-tronco adultas do tecido adiposo foi realizada no Centro de Terapia Celular do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUCRS, como segue: 20 ml de tecido adiposo foram divididos em dois tubos e lavados com 40 ml de Dullbeco's Phosphate Buffered Saline (DPBS; Invitrogen Corp., Carlsbad, CA, Estados Unidos) contendo 2% (v/v) de soro fetal bovino (FBS; Invitrogen Corp., Carlsbad, CA, Estados Unidos) para retirada das hemácias. A suspensão foi centrifugada a 450 x g, por 5 minutos. O tecido adiposo foi transferido para um novo tubo, em que foram acrescentados 0,015% (p/v) de colagenase (Sigma Corp., St. Louis, MO, Estados Unidos) diluída em DPBS em um total de 50 ml. O tubo foi colocado em um agitador orbital e incubado a 37ºC por 45 minutos, até dissociação completa do tecido. A colagenase foi inativada com meio de cultura Dulbecco's modified Eagle's medium (DMEM - Invitrogen Corp. Carlsbad, CA, Estados Unidos), contendo 10% (v/v) de FBS, e a solução foi dividida em dois tubos. As células foram centrifugadas a 1.200 x g por 10 minutos e o sobrenadante foi descartado. As células foram ressuspensas com 10 ml de DPBS contendo 10% (v/v) de FBS, seguido de nova centrifugação para lavagem. A seguir, foi realizada a quantificação do número total de células no hemocitômetro. As células foram ressuspensas em soro fisiológico em densidade de 5x108 células por ml para infiltração na cicatriz.

Citometria de fluxo foi realizada com os seguintes anticorpos: CD73, CD105 e CD117. As amostras foram analisadas em um citômetro de fluxo FACScalibur (Becton Dickinson Immunocytometry Systems, San Jose, CA, Estados Unidos). Uma alíquota de 100 µl da suspensão de células-tronco adultas do tecido adiposo foi utilizada para a caracterização das populações celulares. Foram acrescentados 20 µl de cada anticorpo e a solução foi incubada à temperatura ambiente, por 30 minutos, no escuro. A amostra foi centrifugada a 200 x g, por 5 minutos, e o sobrenadante foi descartado. A amostra foi lavada com 2 ml de PBS (0,1% de azida sódica e 1% de FBS) por centrifugação a 200 x g, por 5 minutos. O sobrenadante foi descartado e as células foram ressuspensas com 500 µl de PBS.

Uso de Células-Tronco Adultas de Tecido Adiposo na Cicatriz

Para a realização dessa pesquisa, foi selecionado o segmento situado na região suprapúbica, no local da cicatriz da abdominoplastia, demarcando-se 5 cm para cada lado da linha média (Figura 3). O implante de células-tronco adultas de tecido adiposo foi randomizado em relação aos lados, sem o conhecimento das pacientes e dos observadores.

Antes da síntese da pele, as células-tronco adultas do tecido adiposo suspensas em soro fisiológico foram implantadas na derme da ferida operatória. Previamente ao início da pesquisa com as pacientes selecionadas, foi calculado o volume necessário para abranger a superfície de 1 cm2 da pele, injetando-se azul de metileno na derme. Verificou-se que cada 0,5 ml abrange 1 cm2 da pele (Figuras 4 e 5).


Figura 4 - Infiltração de azul de metileno na derme para calcular o volume necessário para abranger 1 cm2 de superfície cutânea.


Figura 5 - Implante de células-tronco adultas do tecido adiposo na derme, a 0,5 ml/cm2 de superfície cutânea.



No lado randomizado, em ambas as bordas da ferida operatória, foram injetados 5 ml de soro fisiológico, que continham células-tronco adultas do tecido adiposo, em uma densidade de 5x108 por ml18. No lado contralateral, que serviu como controle, foi injetado idêntico volume somente de solução fisiológica. Dessa forma, foi possível comparar, na mesma paciente, a evolução da cicatrização com e sem implante de células-tronco adultas de tecido adiposo.

Avaliação da Cicatrização

A pesquisa na área da cicatrização ainda está em seus passos iniciais. Morris et al.30, em 1997, descreveram um estudo em orelhas de coelhos para avaliar o tratamento da cicatriz hipertrófica com trioncinolona em comparação à solução salina.

Historicamente a cicatrização humana tem sido avaliada por meio de estudos clínicos. Para isso, torna-se necessário um instrumento de avaliação da cicatriz que seja definido em uma linguagem médica comum. A escala de Vancouver vem tendo muita aceitação, sendo mais utilizada para queimaduras31-34. Beausang et al.35, em 1998, ampliaram essa escala, tornando-a mais completa para avaliação de cicatrizes lineares após cirurgia ou trauma. Como essas duas escalas não consideravam o componente autoavaliação, Draaijers et al.36 criaram uma escala que depende da avaliação do paciente e do observador.

Além dessas escalas, a avaliação morfométrica por meio da fotografia digital tem sido considerada método objetivo de documentação e avaliação das cicatrizes37.

Neste estudo, as cicatrizes foram avaliadas pelos seguintes métodos:

1. Escalas paciente/observador (Draaijers et al.36) - consiste em duas escalas numéricas que foram validadas e testadas em relação à escala de Vancouver31-34. A escala do observador contém 5 itens de avaliação: vascularização, pigmentação, elasticidade, espessura e relevo. A escala para paciente contém 6 itens de avaliação: cor, elasticidade, espessura, relevo, coceira e dor. Cada item de avaliação possui um escore que varia de 1 a 10. O escore 10 significa a pior cicatriz e a pior sensação imaginável. A soma dos escores da escala do observador varia de 5 a 50, enquanto a soma dos escores do paciente varia de 6 a 60. As menores somas dos escores, 5 e 6, respectivamente, refletem a pele normal. Neste estudo, 4 observadores, sendo 3 médicos e a própria paciente operada, avaliaram os resultados da cicatrização nos períodos de 1 mês, 3 meses, 6 meses e 12 meses de pós-operatório. Para observadores médicos, foram indicados 2 cirurgiões plásticos e 1 dermatologista, todos com mais de dez anos de especialização e não pertencentes ao corpo clínico do Hospital São Lucas da PUCRS.

2. Escala morfométrica por fotografia digital e análise de imagem (Image Pro Plus, Media Cybermetics, Estados Unidos)37 - avaliação fotométrica realizada por um médico do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital São Lucas da PUCRS, que desconhecia os lados em que foram implantadas as células-tronco adultas de tecido adiposo. A cicatriz foi avaliada por densidade óptica da imagem (DOI) e por média da extensão perpendicular da cicatriz em dez pontos, em ambos os lados, nos locais de implante das células-tronco adultas de tecido adiposo e no controle. As pacientes pesquisadas foram fotografadas, em todas as fases de avaliação, com a mesma câmera fotográfica (Sony®: DSC-W7, 7.2 mega pixels), mesma luminosidade e mesma distância.


Análise Estatística

Todos os elementos observados nas pacientes foram quantificados por meio de análise de pixels nas fotografias ou de escores na impressão das pacientes e na avaliação dos médicos. Foram obtidas medidas descritivas por média e desvio padrão de cada momento da avaliação. Em seguida, calcularam-se áreas sob a curva para os pontos formados pelos dois lados da cicatriz a serem comparados. As curvas foram comparadas pelo teste t de Student para amostras emparelhadas. Em seguida, a proporção de observações favoráveis e desfavoráveis à intervenção com células-tronco também foi comparada usando-se o teste binomial. O nível de significância adotado foi de alfa = 0,05. Os dados foram analisados por intenção de tratar em protocolo Last Observation Carried Forward (LOCF), processados e analisados com o programa SPSS, versão 15.0.


RESULTADOS

Foram operadas 18 pacientes, entre as quais 17 (94,4%), sob o ponto de vista cirúrgico, tiveram resultados excelentes ou bons e em 1 (5,5%) o resultado foi considerado mau, em decorrência de deiscência na sutura da região suprapúbica. No decorrer da pesquisa, outras 5 (27,7%) pacientes abandonaram o acompanhamento, restando 12 (66,6%) até o final. De qualquer modo, usando o protocolo de "intenção de tratar", to­das as 18 pacientes foram incluídas na análise.

Utilizando-se os critérios da escala de Draaijers et al.36 foi possível verificar que os lados implantados com células-tronco adultas de tecido adiposo apresentaram melhor cicatrização que aqueles (controle) em que foi infiltrado somente soro fisiológico (Figuras 6 e 7).


Figura 6 - Implante de células-tronco adultas do tecido adiposo no lado direito.


Figura 7 - Implante de células-tronco adultas do tecido adiposo no lado esquerdo.



Na comparação dos aspectos fotométricos, não foi detectada diferença estatisticamente significante na mensuração randômica (P = 0,44), nem na mensuração total (P = 0,66).

Para comparar as avaliações das pacientes, 6 aspectos foram considerados: dor, prurido, cor, rigidez, espessura e irregularidade. Em nenhum desses aspectos encontrou-se, à análise de escores, significância estatística (P > 0,17). No entanto, considerando-se todos os eventos de avaliação ao longo do período de observação, foram obtidos 42 pontos de medida, dos quais 15 foram favoráveis ao controle e 27, favoráveis às células-tronco, o que atingiu nível de significância a favor da intervenção por células-tronco (P = 0,12).

Na avaliação dos observadores médicos, 5 aspectos foram considerados: vascularização, pigmentação, espessura, contratura e elasticidade. Em nenhum desses aspectos foi encontrada diferença estatisticamente significante (P > 0,37). No entanto, quando considerada a distribuição das avaliações, ao longo do período de observação, obteve-se 35 pontos de medida, dos quais 8 foram favoráveis ao controle e 27 foram favoráveis às células-tronco, o que atingiu nível de significância a favor da intervenção por células-tronco (P = 0,003) (Figura 8).


Figura 8 - Avaliação por médicos. Gráfico de dispersão de pontos, representando a distribuição dos eventos de avaliação ao longo do período de observação, favorável ao implante de células-tronco adultas do tecido adiposo (P = 0,003).



Ao se estratificar as avaliações por pacientes e fotometria, não foi encontrada diferença estatisticamente significante, provavelmente em decorrência do número reduzido de eventos avaliados. Entretanto, considerando-se todas as avaliações realizadas (médicos, pacientes e fotometria), foi encontrada diferença estatisticamente significante favorável ao implante com células-tronco adultas de tecido adiposo. Em um total de 91 eventos, 65 foram favoráveis ao implante com células-tronco adultas do tecido adiposo e 26, a favor do controle (P < 0,001) (Tabela 1).




DISCUSSÃO

Os resultados da abdominoplastia são secundários ao foco desta pesquisa, que analisa exclusivamente a cicatrização da pele. Entretanto, tornam-se importantes para comprovar que a realização deste estudo clínico não provocou qualquer alteração que pudesse comprometer a evolução pós-operatória e os resultados nas pacientes participantes.

Condutas baseadas em evidências38 são utilizadas para que a cicatrização pós-cirúrgica tenha bom resultado. Além de técnica cirúrgica apurada e cuidados para bem posicionar as cicatrizes de acordo com as linhas de força da pele, deve ser evitada qualquer tensão nas linhas de sutura. No pós-operatório, é recomendável imobilização e compressão da cicatriz, inclusive na fase de maturação3.

Medidas terapêuticas, como emprego de corticoides, toxina botulínica, vitaminas A e E, fitas adesivas de silicone, laser e radioterapia, são utilizadas para prevenção ou na vigência de cicatriz hipertrófica ou queloide3,8-11. Este ensaio clínico, prospectivo, randomizado, foi realizado com os mesmos objetivos, visando à melhora das cicatrizes. O implante de células-tronco adultas de tecido adiposo na derme da ferida operatória da abdominoplastia demonstrou ação benéfica na cicatrização. As células utilizadas, autólogas, não tinham contraindicações e não causaram efeitos secundários, como podem ocorrer em outras condutas que empregam corticoides ou radioterapia.

Não foi possível realizar uma análise comparativa com outros ensaios clínicos similares, em decorrência da escassez de pesquisas publicadas que avaliassem implante de células-tronco adultas de tecido adiposo em incisões cirúrgicas na pele de humanos. Os artigos encontrados fizeram essa análise em animais de laboratório39,40 e seus resultados, bem como os desta pesquisa, também referem efeitos benéficos da terapia celular para a cicatrização cutânea.

Por ser um estudo inicial, os resultados aqui relatados podem ser considerados promissores, quando comparados com pesquisas que vêm sendo realizadas há mais tempo, como experimentos que empregam a terapia celular na regeneração de outros tecidos. Estudos em doenças ou traumas de órgãos, como coração, fígado, rim e nervos periféricos18,41-43, comprovaram que seus tecidos podem ser regenerados.


CONCLUSÃO

Os resultados da cicatrização da pele em ferida pós-operatória de abdominoplastia, após implante de células-tronco adultas de tecido adiposo, demonstraram-se satisfatórios.


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1. PhD em Clínica Cirúrgica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), chefe do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital São Lucas da PUCRS, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Porto Alegre, RS, Brasil.
2. PhD em Clínica Cirúrgica pela PUCRS, membro titular da SBCP, preceptor do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital São Lucas da PUCRS, Porto Alegre, RS, Brasil.
3. PhD em Imunologia Celular pela University of Sheffield, Reino Unido, coordenadora do Centro de Terapia Celular do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUCRS, Porto Alegre, RS, Brasil.
4. Professor livre-docente, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Microcirurgia Reconstrutiva; ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, Porto Alegre, RS, Brasil.

Correspondência para:
Pedro Djacir Escobar Martins
Av. Engenheiro Alfredo Correa Daudt, 125 - ap. 301 - Boa Vista
Porto Alegre, RS, Brasil - CEP 90480-120
E-mail: clinicapedromartins@terra.com.br

Artigo submetido pelo SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBCP.
Artigo recebido: 28/5/2011
Artigo aceito: 19/8/2011

Trabalho realizado no Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

 

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