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Case Reports - Year2010 - Volume25 - Issue 1

ABSTRACT

Introduction: The full-thickness burns and their deformities remain as one of the most complex diseases to which the plastic surgeon has encountered in current times. The full-thickness deformity post burn, in the axillary and chest-ment, always lead to retractions, causing some major function and aesthetic changes. The correction of these deformities is still a dilemma of current medicine. The operation of Zetaplastia is an essential and powerful arsenal of the surgeon for the post burn reconstruction. Case report: The authors describe a case of sequelae of extensive burn in male, 8 years, with axillary and chest-ment retractions, which was treated with the technique of zetaplasty, once again demonstrating its effectiveness and versatility in the treatment of burn sequelae.

Keywords: Burns. Contracture/surgery. Reconstructive surgical procedures.

RESUMO

Introdução: As queimaduras de espessura total e suas sequelas permanecem como uma das mais complexas doenças com que o cirurgião plástico tem se deparado nos tempos atuais. As sequelas pós-queimadura de espessura total, nas regiões mento-torácica e axilares, sempre levam a retrações, determinando grandes alterações funcionais e estéticas. A correção destas deformidades ainda se constitui num dilema da medicina atual. A operação de Zetaplastia é uma ferramenta essencial e poderosa do arsenal do cirurgião para a reconstrução de queimadura. Relato de caso: Os autores descrevem um caso de sequela de queimadura extensa em paciente do sexo masculino, de 8 anos, com retrações axilares e mento-torácica, tratado com a técnica de zetaplastia, que demonstrou mais uma vez sua eficácia e versatilidade no tratamento dessas sequelas.

Palavras-chave: Queimaduras. Contratura/cirurgia. Procedimentos cirúrgicos reconstrutivos.


INTRODUÇÃO

A cirurgia reconstrutora após lesão por queimadura engloba quase todos os aspectos da cirurgia plástica. A população de pacientes inclui crianças e adultos e todas as regiões do corpo podem ser acometidas.

As queimaduras de espessura total e suas sequelas permanecem como uma das mais complexas doenças com que o cirurgião plástico tem se deparado nos tempos atuais. As sequelas cicatriciais, de acordo com a sua localização e extensão, podem ser mais ou menos incapacitantes ou, mais ou menos deformantes, e é por isso que a cirurgia reconstrutiva do paciente queimado constitui um dos maiores feitos da cirurgia plástica atual1.

As sequelas pós-queimadura de espessura total, nas regiões mento-torácica e axilares, sempre levam a retrações, determinando grandes alterações funcionais e estéticas, favorecendo a posição em flexão ou limitando a extensão e/ou abdução1.

Ainda que toda cicatriz apresente um grau variável de retração temporária ou permanente, quando localizada em áreas limítrofes ou próximo às zonas articulares, pode ocasionar o aparecimento de bridas cicatriciais1.

A correção destas deformidades ainda se constitui num dilema da medicina atual. A operação de Zetaplastia é uma ferramenta essencial e poderosa do arsenal do cirurgião para a reconstrução de queimadura. Há mais de 150 anos a Zetaplastia é utilizada em decorrência de sua capacidade de alongar cicatrizes lineares, lançando mão de tecido adjacente relativamente frouxo. Quando feita adequadamente, causa um efeito profundamente benéfico na fisiologia do tecido cicatricial2.


RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 8 anos, foi trazido ao Serviço de Cirurgia Plástica da Associação Beneficente de Campo Grande - Santa Casa de Misericórdia, com quadro de sequela grave de queimadura de 2o e 3o graus, por líquido aquecido, acometendo face, pescoço, tórax, abdome, dorso e membros superiores, ocorrido há 3 anos. O paciente apresentava como sequelas cicatrizes extensas em couro cabeludo, perda de segmento de orelha direita e esquerda, retração mento-torácica, retração de lábio inferior e retrações axilares bilaterais, com importante limitação funcional e estética.

O paciente não apresentava comorbidades, nem doenças pregressas.

Ao exame físico observaram-se cicatrizes em couro cabeludo com áreas de alopecia, principalmente regiões temporais; importante deformação e perda segmentar de porções superiores de ambos os pavilhões auriculares; cicatrizes extensas em todo terço inferior da face, com grande deformidade e retração de lábio inferior; retrações em região anterior do pescoço, limitando a extensão normal; retrações em região de pilar axilar anterior bilateralmente, limitando a abdução, extensão e rotação externa dos membros superiores, cicatrizes em ombros e parede anterior do tórax e abdome (Figuras 1 e 2).


Figura 1 - Vista frontal pré-operatória.


Figura 2 - Vista perfil direito pré-operatório.



Diante do quadro em questão, optou-se por iniciar as correções cirúrgicas pela liberação das retrações axilares e mento-torácicas, devido à grande limitação que as mesmas proporcionavam.

O paciente foi submetido à anestesia geral, e optou-se pela realização de três zetaplastias com ângulo de 60 graus cada, assim distribuídas: uma zetaplastia em região mento-torácica, em posição ântero-lateral direita; e duas zetaplastias, uma em cada axila, na região do pilar axilar anterior; associadas à ressecção de cordões fibrosos locais.

Foi realizada demarcação das zetaplastias com caneta cirúrgica e, após realização da anti-sepsia e assepsia, foi feito reforço da marcação com azul de metileno (Figura 3).


Figura 3 - Aspecto transoperatório. Marcação das Zetaplastias.



Realizada dissecção dos retalhos e ressecção dos cordões fibrosos, seguida de rigorosa hemostasia. A seguir, foi feita a transposição dos retalhos e síntese do tecido celular subcutâneo com fio absorvível de categute 2.0 e síntese da pele com fio inabsorvível de nylon 4.0 (Figura 4).


Figura 4 - Pós-operatório imediato.



Foi feito, então, um curativo oclusivo, mantendo-se o pescoço em extensão normal, e os membros superiores em posição de abdução de 90 graus. O curativo foi feito com gaze e atadura de crepe.

Os curativos foram trocados diariamente e os pontos retirados no 7o dia de pós-operatório (Figura 5).


Figura 5 - Pós-operatório de 7 dias.


O paciente evolui com boa recuperação pós-operatória e cicatrização satisfatória dos retalhos, apresentando expressiva melhora da retração do lábio inferior (pela diminuição da tração inferior causada pela retração mento-torácica), melhora da extensão cervical e abdução dos membros superiores, comprovada pelo controle pós-operatório com 30 dias e com 6 meses (Figuras 6 e 7).


Figura 6 - Pós-operatório de 30 dias.


Figura 7 - Pós-operatório de 6 meses.



DISCUSSÃO

As cicatrizes e as contraturas cervicais podem limitar gravemente a função, causar alterações de postura normal e tornar a intubação difícil em uma cirurgia. Na região da axila, cicatrizes retráteis podem comprometer o pilar anterior, posterior ou ambos, a região axilar inteira ou áreas adjacentes3.

Ogawa et al.4 classificaram as contraturas axilares em 4 tipos, sendo:

  • Tipo 1A: envolvimento da prega axilar anterior;
  • Tipo 1B: envolvimento da prega axilar posterior;
  • Tipo 2: envolvimento de ambas as pregas axilares;
  • Tipo 3: tipo 2 associado ao envolvimento do oco axilar.


  • O tratamento destas sequelas de queimadura é complexo e prolongado, passando por múltiplas cirurgias. Devem-se evitar enxertos de pele sempre que possível, e usar preferencialmente retalhos cutâneos ou fasciocutâneos da face interna do braço ou da região dorsal. Múltiplas zetaplastias ou retalhos de avanço em V-Y são passíveis de serem executados nas bridas cicatriciais, com excelentes resultados5.

    O uso de retalhos ao invés de enxertos possibilita menor tempo de imobilização pós-operatória, menor tempo de hospitalização e menor possibilidade de recorrência da deformidade6.

    O tratamento adequado dessas retrações impede deformidades maiores, resultantes da limitação funcional, que levarão a longo prazo ao encurtamento de tendões e à atrofia muscular7.


    REFERÊNCIAS

    1. Pereira WJB, Figueiroa GEG. Sequelas de queimaduras. In: Mélega JM, ed. Cirurgia plástica: fundamentos e arte. Princípios gerais. 1a ed. Rio de Janeiro: Medsi; 2002.

    2. Donelan MB. Princípios da reconstrução em queimaduras. In: Thorne CH, Beasley RW, Aston SJ, Bartlett SP, Gurtner GC, Spear SL, eds. Grabb and Smith´s plastic surgery. 6th ed. Philadelphia:Lippincott-Raven Publishers; 2007.p.147-58.

    3. Weinzweig J. Segredos em cirurgia plástica. 1a ed. Porto Alegre: Artmed; 2001.p.526-32.

    4. Ogawa R, Hyakusoku H, Murakami M, Koike S. Reconstruction of axillary scar contractures: retrospective study of 124 cases over 25 years. Br J Plast Surg. 2003;56(2):100-5.

    5. Okamoto RH, Ramos RR. Sequelas de queimaduras. In: Ferreira LM, ed. Guias de medicina ambulatorial e hospitalar UNIFESP-Escola Paulista de Medicina. Cirurgia Plástica. 1a ed. São Paulo: Manole; 2007.p.229-38.

    6. Moroz VY, Yudenich AA, Sarygin PV, Sharobaro VI. The elimination of post-burn scar contractures and deformities of the shoulder joint. Ann Burns Fire Disasters. 2003;16(3):140-3.

    7. Achauer BM, Vanderkam VM. Burn reconstruction. Plast Surg. 1991;1:425-39.










    1. Médico Residente do Serviço de Cirurgia Plástica da Associação Beneficente de Campo Grande - Santa Casa de Misericórdia.
    2. Cirurgião plástico; Médico Regente do Serviço de Cirurgia Plástica da Associação Beneficente de Campo Grande - Santa Casa de Misericórdia.

    Trabalho realizado pelo Serviço de Cirurgia Plástica da Associação Beneficente de Campo Grande - Santa Casa de Misericórdia, Campo Grande, MS.
    Artigo submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBCP.

    Correspondência para:
    Chreichi Lopes de Oliveira
    Rua Querubina Garcia Nogueira, 778 - Jardim das Perdizes
    Campo Grande, MS - CEP: 79063-130
    E-mail: chreichi@yahoo.com.br

    Artigo recebido: 11/2/2009
    Artigo aceito: 1/4/2009

     

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