Original Article - Year 2026 - Volume 41Issue 1
Perfil epidemiológico dos casos de queimaduras no Ceará, Brasil
Epidemiological Profile of Burn Cases in Ceará, Brazil
RESUMO
Introdução Este estudo busca traçar o perfil epidemiológico das vítimas de queimaduras no Ceará, destacando a necessidade de campanhas de prevenção emelhorias nos cuidados de saúde. Objetivos Apresentar dados a respeito do perfil das vítimas de queimaduras no Estado do Ceará.
Materiais e Métodos Estudo ecológico, realizado com dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), entre janeiro de 2015 e junho de 2024.
Resultados O estudo epidemiológico analisou 7.892 pacientes vítimas de queimaduras no Ceará, revelando predominância do sexo masculino (66,7%). O maior número de internações foi registrado em adultos de 20 a 59 anos (58%), seguidos por crianças de 1 a 9 anos (20%). Vale notar que crianças de 1 a 4 anos representaram 70% dos internamentos infantis. O atendimento majoritariamente registrado foi o de urgência (87%), sendo a maioria dos casos realizados nas unidades do SUS. Os dados indicam que homens pardos, adultos, dependentes do SUS e da região metropolitana de Fortaleza são os principais afetados, reforçando-se a necessidade de campanhas direcionadas à prevenção e conscientização sobre queimaduras, especialmente em ambientes domésticos e de trabalho.
Conclusão Os dados apresentados pelo estudo revelam que o perfil predominante de vítimas de queimaduras no Ceará são homens pardos entre 20 e 59 anos, destacando a necessidade de atenção das autoridades. O presente estudo preenche uma lacuna na literatura sobre a epidemiologia das queimaduras no Ceará, oferecendo informações cruciais para a formulação de políticas públicas e ações de saúde.
Palavras-chave: epidemiologia; medicina preventiva; pele; queimaduras; transplantes
ABSTRACT
Introduction This study aims to outline the epidemiological profile of burn victims in Ceará, highlighting the need for prevention campaigns and improvements in healthcare. Objectives To present data on the profile of burn victims in the state of Ceará, Brazil.
Materials and Methods This ecological study used data from the Department of Informatics of the Brazilian Unified Health System (DATASUS) between January 2015 and June 2024.
Results The epidemiological study analyzed 7,892 burn patients in Ceará, revealing a predominance of males (66.7%), with the highest number of hospitalizations in adults aged 20 to 59 years (58%), followed by children aged 1 to 9 years (20%). Notably, children aged 1 to 4 years accounted for a significant 70% of pediatric admissions. The majority of recorded care was for emergency services (87%), at SUS units. The data indicate that most affected patients were Brown, male, adult, and SUS-dependent subjects from the Fortaleza metropolitan region, underscoring the need for targeted prevention and awareness campaigns about burns, especially in domestic and workplace environments.
Conclusion The data presented in the study reveal that the predominant profile of burn victims in Ceará consists of Brown males aged 20 to 59 years, highlighting the need for attention from authorities. This study fills a gap in the literature on burn epidemiology in Ceará, providing crucial information for the formulation of public policies and health actions.
Keywords: epidemiology; preventive medicine; skin; burns; transplantation
Introdução
A Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) define que queimadura é toda lesão ocasionada por contato direto com algo que forneça calor ou frio, seja quimicamente ativo, eletricamente disposto ou radioativo. A SBQ também consi-dera que queimaduras podem advir de animais peçonhentos ou plantas urticantes. Em alguns casos, essa lesão de forte resposta inflamatória pode desencadear uma resposta sistê-mica perigosa quando se tem 30% do corpo acometido, devido a liberação de citocinas e outros mediadores da inflamação.1
As queimaduras, conforme os relatórios anuais da Orga-nização Mundial da Saúde (OMS), matam, em média, 180 mil pessoas por ano no mundo. Os motivos da lesão variam entre diferentes populações, mas o trauma permanece como com-ponente epidemiológico fundamental,2 sendo que 11 milhões de vítimas de queimaduras necessitam de cuidados especializados em todo o globo, por ano.2 Esses dados ultrapassam os acometimentos registrados de tuberculose e (vírus da imunodeficiência humana) HIV.3
No Brasil, os números chegam a, em média, 1.000.000 acidentes por ano, dos quais 100.000 pacientes procuram atendimento hospitalar, evoluindo cerca de 2.500 casos para óbito.3,4 De acordo com o Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS) e a SBQ, a exposição ao calor, responsável por provocar queimaduras, gera custos em torno de R$ 1.200,00 a 1.500,00 por dia de internação,4 o que provoca um significativo gasto do sistema público de saúde (SUS). No ano 2000, de todas as internações no SUS, 3,39% (n = 23.550) foram de vítimas de queimadu-ras.4 Em 2023, esses números chegaram a 6.981, apenas contabilizando crianças e adolescentes, com uma média de 20 internações por dia de vítimas de queimaduras sendo registradas no país, de acordo com o Ministério da Saúde brasileiro.
A literatura cientifica retrata que o sexo masculino é o mais acometido por queimaduras, tendo o etilismo como maior causa em todas as idades, com a exceção da faixa etária entre 0 e 4 anos, os quais tem a escaldadura como o principal agente etiológico provindo do ambiente de cozinhas domés-ticas.5 As bases teóricas também confirmam que a idade média dos casos de queimaduras é de adultos entre25 e 26 anos, com elevados números de queimaduras de primeiro grau isoladamente, além de um importante quantitativo de queimaduras de primeiro e segundo grau combinadas.5
Outros achados acadêmicos mostram também que o tempo médio de internação dos pacientes vítimas de quei-maduras é entre 1 e 2 semanas e que 51,5% dos casos registrados nas bases de dados são provenientes de acidentes domésticos, sendo líquido quentes a principal causa dos acidentes. Além disso, a taxa de suicídio é baixa (4,95%).6
Com isso, estudos epidemiológicos são fundamentais para o referenciamento de práticas de assistência e promoção à saúde (como campanhas de extensão universitária objetifi-cando a prevenção de queimaduras e projetos que melhorem a efetividade do tratamento de vítimas de queimaduras).7 Por esses motivos e considerando a escassez de estudos epidemiológicos sobre esse tema a respeito do Estado do Ceará, fez-se fundamental a escrita desse trabalho para traçar o perfil epidemiológico dos pacientes vítimas de queimadu-ras no Ceará em um período de aproximadamente 9 anos.
Objetivos
O presente estudo teve como objetivo apresentar dados a respeito do perfil das vítimas de queimaduras no Estado do Ceará e sua epidemiologia, visando-se, com isso, referenciar projetos para o combate desse cenário adverso. Além disso, buscou-se iniciar a correção da lacuna de estudos sobre essa temática no estado.
Materiais e Métodos
Trata-se de estudo ecológico, com levantamento de dados do período entre janeiro de 2015 e junho de 2024, realizado em ambiente virtual pelo DATASUS,8 a partir da seção “Informa-ções em Saúde - TABNET”.
A seleção de dados nesta plataforma foi direcionada aos tópicos “Epidemiológicas e Morbidade” e a “Mobilidade Hospitalar (SUS)”. No início, foi preferido “Morbidade Hos-pitalar do SUS - Geral, por local de internação, a partir de 2008”. Os dados obtidos são referentes a todos os pacientes vítimas de queimaduras no estado do Ceará com registro de atendimento hospitalar no período. Não foram aplicados critérios de exclusão sobre a população do estudo.
Foram adicionadas como variáveis características indivi-duais, como sexo, faixa etária e raça e, em seguida, foi escolhido no filtro “lista morbilidade CID-10” o diagnóstico de “queimaduras e corrosões”. Além disso, foram levantados os regimes (público ou privado) de atendimento, a região de saúde da notificação e o caráter de atendimento.
Foi feito, ademais, o confronto de alguns elementos como a relação entre sexo e faixa etária, sexo e cor/raça, assim como sexo e caráter de urgência, para uma melhor comparação. Com relação à faixa etária, estes foram divididos em cinco grupos: lactentes (< 1 ano), crianças (1 a 9 anos), adoles-centes (10-19 anos), adultos (20-59 anos) e idosos (> 60 anos). As informações obtidas foram tabuladas no programa Planilhas Google (Google LLC.), no qual foi feita a contagem dos resultados em números absolutos e relativos utilizando estatística descritiva.
Este estudo utilizou dados secundários, disponíveis no ambiente virtual de domínio público, não apresentando risco ao sigilo e anonimato dos indivíduos envolvidos no trabalho, sendo, portanto, dispensada aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Resultados
No presente estudo, foram analisados 7.892 pacientes víti-mas de queimaduras no Estado do Ceará no período entre 2015 e o primeiro semestre de 2024. A população estudada foi estratificada entre cor/raça, sexo, faixa etária, regime de atendimento (público ou privado), caráter de urgência e região de saúde da notificação, separadas ano a ano (►Tabela 1).
| Ano | 2015 | 2016 | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | TOTAL |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Números relacionados à cor/raça | |||||||||||
| Preto | 4 | 15 | 9 | 9 | 20 | 17 | 18 | 6 | 4 | 3 | 105 |
| Parda | 69 | 628 | 662 | 688 | 590 | 393 | 257 | 323 | 948 | 582 | 5.140 |
| Branca | 16 | 85 | 40 | 62 | 100 | 63 | 48 | 29 | 25 | 8 | 476 |
| Amarelo | 5 | 112 | 56 | 97 | 117 | 116 | 50 | 33 | 9 | 0 | 595 |
| Sem informação | 626 | 100 | 58 | 41 | 58 | 86 | 365 | 242 | 0 | 0 | 1.576 |
| Sexo | |||||||||||
| Masculino | 513 | 644 | 534 | 615 | 585 | 470 | 499 | 401 | 622 | 381 | 5.264 |
| Feminino | 207 | 296 | 291 | 282 | 300 | 205 | 239 | 232 | 364 | 212 | 2.628 |
| Faixa etária | |||||||||||
| Lactentes | 11 | 16 | 17 | 8 | 16 | 10 | 14 | 15 | 8 | 10 | 125 |
| Crianças | 153 | 202 | 134 | 173 | 152 | 133 | 154 | 175 | 181 | 138 | 1.595 |
| Adolescentes | 61 | 106 | 85 | 86 | 79 | 62 | 54 | 43 | 134 | 31 | 741 |
| Adultos | 425 | 529 | 520 | 521 | 514 | 407 | 423 | 356 | 556 | 332 | 4.583 |
| Idosos | 70 | 87 | 69 | 109 | 124 | 63 | 93 | 44 | 107 | 82 | 848 |
| Regime de atendimento | |||||||||||
| Público | 562 | 562 | |||||||||
| Privado | 50 | 50 | |||||||||
| Ignorado | 108 | 940 | 825 | 897 | 885 | 675 | 738 | 633 | 986 | 590 | 7.277 |
| Tipo de atendimento | |||||||||||
| Eletivo | 6 | 2 | 5 | 3 | 3 | 3 | 5 | 11 | 84 | 49 | 171 |
| Urgência | 657 | 812 | 702 | 805 | 744 | 583 | 632 | 554 | 837 | 529 | 6.855 |
| Outro | 46 | 119 | 117 | 84 | 129 | 88 | 94 | 59 | 60 | 15 | 811 |
| Agente químico/físico | 11 | 7 | 1 | 5 | 9 | 1 | 7 | 9 | 5 | 0 | 55 |
| Região de notificação | |||||||||||
| Litoral leste/Jaguaribe | 4 | 4 | 3 | 5 | 5 | 10 | 15 | 18 | 12 | 10 | 86 |
| Sertão central | 2 | 13 | 4 | 17 | 16 | 16 | 10 | 13 | 16 | 8 | 115 |
| Cariri | 48 | 44 | 31 | 33 | 31 | 26 | 48 | 38 | 37 | 17 | 353 |
| Sobral | 32 | 32 | 49 | 40 | 51 | 38 | 50 | 24 | 29 | 22 | 367 |
| Fortaleza | 634 | 847 | 738 | 802 | 782 | 585 | 615 | 540 | 892 | 536 | 6.971 |
Fonte: Elaborada pelos autores através de dados do TABNET.
Dessa forma, foi possível analisar que o sexo masculino apresentou predominância nos casos de queimaduras no Ceará, com aproximadamente 66,7% das notificações. Com relação à faixa etária, observou-se uma maior série de internamentos em adultos (20-59 anos), com aproximada-mente 58% (n = 4.583) das notificações, seguidos das crian-ças (1-9 anos), com aproximadamente 20% (n = 1.595) das notificações. Vale destacar que o subgrupo das crianças entre 1 e 4 anos incluiu 1.112 notificações, o que representou aproximadamente 70% dos casos entre crianças (►Tabela 1).
Além disso, o caráter de atendimento de urgência repre-sentou aproximadamente 87% (6.855) das notificações. A maioria dos casos registrados receberam atendimentos no setor público (►Tabela 2).
| Caráter de atendimento | Público n (%) | Privado n (%) | Ignorado n (%) | Total n (%) |
|---|---|---|---|---|
| Total | 562 (7,1%) | 50 (0,63%) | 7.280 (92,2%) | 7.892 |
| Eletivo | 5 (2,9%) | 1 (0,7%) | 165 (96,4%) | 171 (2,1%) |
| Urgência | 526 (7,6%) | 41 (0,59%) | 6.288 (91,7%) | 6.855 (86,8%) |
| Outro tipo de acidente de trânsito | 27 (3,3%) | 3 (0,36%) | 781 (96,3%) | 811 (10,2%) |
| Agente químico ou físico | 4 (7,2%) | 5 (9%) | 46 (83,6%) | 55 (0,69%) |
Fonte: Elaborada pelos autores através de dados do TABNET.
Para uma análise específica da população, foram confron-tadas algumas variáveis. Entre os elementos presentes neste estudo, foi confrontado a relação entre sexo e faixa etária, sexo e cor/raça, sexo e caráter de atendimento, assim como sexo e regime de atendimento (►Tabela 3). Foi analisado que homens, na fase adulta e pardos, tiveram prevalência na população da pesquisa, além de prevalência nas notificações em regime de urgência no setor público.
| Sexo | Masculino n (%) | Feminino n (%) | Total n (%) |
|---|---|---|---|
| Relação sexo e faixa etária | |||
| Menor de < 1 ano | 79 (63,2%) | 46 (36,8%) | 125 (1,6%) |
| 1-4 | 680 (61,2%) | 432 (38,8%) | 1.112 (14,1%) |
| 5-9 | 284 (58,8%) | 199 (41,2%) | 483 (6,1%) |
| 10-14 | 226 (73,1%) | 83 (26,9%) | 309 (3,9%) |
| 15-19 | 321 (74,3%) | 111 (25,7%) | 432 (5,5%) |
| 20-29 | 919 (72,1%) | 356 (27,9%) | 1.275 (16,1%) |
| 30-39 | 1.026 (68,5%) | 472 (31,5%) | 1.498 (18,9%) |
| 40-49 | 804 (70,8%) | 331 (29,2%) | 1.135 (14,4%) |
| 50-59 | 445 (65,9%) | 230 (34,1%) | 675 (8,5%) |
| 60-69 | 265 (59,7%) | 179 (40,3%) | 444 (5,6%) |
| 70-79 | 163 (60,2%) | 108 (39,8%) | 271 (3,4%) |
| 80 | 55 (41,4%) | 78 (58,6%) | 133 (1,7%) |
| Relação entre sexo e cor/raça | |||
| Branca | 293 (61,5%) | 183 (38,5%) | 476 (6,03%) |
| Preta | 71 (67,6%) | 34 (32,4%) | 105 (1,3%) |
| Parda | 3.383 (65,8%) | 1.757 (34,2%) | 5.140 (65,1%) |
| Amarela | 412 (69,2%) | 183 (30,8%) | 595 (7,5%) |
| Sem informações | 1.105 (70,1%) | 471 (29,9%) | 1.576 (19,9%) |
| Relação entre sexo e caráter de atendimento | |||
| Eletivo | 112 (65,5%) | 59 (34,5%) | 171 (2,2%) |
| Urgência | 4.475 (65,3%) | 2.380 (34,7%) | 6.855 (86,8%) |
| Outros acidentes de trabalho | 643 (79,3%) | 168 (20,7%) | 811 (10,3%) |
| Agente físico ou químico | 34 (61,9%) | 21 (38,1%) | 55 (0,7%) |
| Relação entre sexo e regime de atendimento | |||
| Público | 410 (72,9%) | 152 (27,1%) | 562 (7,1%) |
| Privado | 32 (64%) | 18 (36%) | 50 (0,63%) |
| Ignorado | 4.822 (66,2%) | 2.458 (33,8%) | 7.280 (92,2%) |
Fonte: Elaborada pelos autores através de dados do TABNET.
Discussão
A literatura traz que o sexo masculino representa a maioria dos casos de queimaduras no Brasil.9 Isso pode ser observado também no Ceará, no qual mais de 70% das notificações de queimaduras em nossa análise têm o mesmo perfil. Nessa perspectiva, as injúrias acometidas a esse grupo provêm provavelmente de trabalhos de alto risco, o que aumenta a probabilidade de acidentes, nesse caso, lesões por queimaduras.
Em relação à faixa etária, os resultados apontam que os adultos (20-59 anos) estão no topo das notificações. A literatura existente corrobora essa tendência,8 assim confi-gurando o Ceará como elemento presente na estatística, a qual mostra que homens adultos representam a maioria das notificações de queimaduras no país. Esse fato mostra a necessidade de uma atenção e projetos educacionais para esse perfil populacional.
O fato de a maioria das notificações estarem na faixa de idade entre 20 e 59 anos é preocupante, visto que esses indivíduos representam a parcela da população economica-mente ativa.9,10 O impacto no setor econômico do país também inclui os gastos com queimados de, em média, 1.350 reais diariamente,10 sendo a média de internação de 7 dias.4 Portanto, cada paciente hospitalizado representa aos cofres públicos um déficit considerável de aproximadamente 9.450 reais, afetando significativamente o SUS.9
Santos et al., por meio de um estudo descritivo, relatam que a maioria dos acidentes observados em um hospital terciário de referência em Fortaleza provém do ambiente laboral, com queimaduras de primeiro e segundo grau recebendo maiores notificações.11
Em relação às crianças nesse estudo, a literatura mostra que a faixa etária da maioria dos acometimentos varia entre 0 e 3 anos.12,13 No Ceará, os dados obtidos via DATASUS mostram que a faixa etária infantil mais acometida por essas lesões é a de 1 e 4 anos de idade. Esse achado representa um alerta para o estado, visto que estudos mostram que as sequelas de queimaduras afetam consisten-temente a qualidade de vida,14 influenciando na perspectiva da imagem corporal.14 Esses desfechos podem ser piores em crianças, visto que o seu desenvolvimento pode ser comprometido.12-14
Na literatura foram encontrados poucos artigos a respeito de crianças acometidas por lesões advindas de queimaduras no Ceará. Secundo et al., por meio de um estudo observa-cional, relatou que as queimaduras de segundo grau foram as mais incidentes entre crianças.15 Além disso, mostra-se que áreas como cabeça, pescoço, tronco e membros superiores são os mais acometidos por queimaduras nessa faixa de idade.15,16
Os resultados do estudo comprovam e espelham, para o Ceará, os achados da literatura, a qual indica que a popu-lação parda é a mais afetada por queimaduras.11,16 Dessa forma, é possível chegar ao perfil no qual se enquadra a maioria da população cearense: homens, adultos e pardos. Esse resultado é essencial para a referenciação de projetos sobre a realidade de lesões por queimadura no Ceará. Além disso, tal resultado pode nortear a tomada de deci-sões no público-alvo de diversos planos de educação em saúde.
Em relação ao caráter de atendimento e o seu regime, os dados apontam que a urgência no setor público é o que sinaliza mais notificações. Esse resultado era esperado, visto que no Brasil 80% da população faz uso do SUS, de acordo com o Ministério da Saúde. A urgência no atendimento para queimaduras também era esperada,17 considerando o protocolo de atendimento, principalmente para lesões de segundo e terceiro grau.17,18
Um ponto limitador do trabalho foram os casos ignorados no sistema do DATASUS, o que reduziu os números achados relacionados ao regime de atendimentos no Brasil, o que foi constatado nos resultados da pesquisa.
Em relação às regiões de notificação no Ceará, tivemos a zona da grande Fortaleza como portadora da maioria das notificações. O resultado era esperado, visto que, de acordo com o censo de 2022, é a região com a maior população do estado. Essa lógica seguiu para a segunda e terceira maior região de casos notificados (Sobral e Cariri). Essas duas regiões tiveram uma diferença ínfima em relação aos casos, podendo ser consideradas praticamente iguais. Contudo, Fortaleza apresenta um número de casos expressivos, apro-ximadamente 88%.
Como comentado ao longo do estudo, esses dados evi-denciam claramente que a população masculina, entre 20 e 59 anos, parda, dependente do SUS e da grande Fortaleza são as vítimas primordiais de notificações de queimaduras no Ceará. Isso evidencia a população específica para futuros projetos de ação e educação com o objetivo de estancar esse cenário adverso. O presente estudo se torna inovador devido à escassez de pesquisas sobre essa temática no Ceará, focadas no perfil da população de queimados. Portanto, cabe ao poder público e às universidades do estado a busca de soluções para a melhora desse cenário.
Outro ponto que merece ser destacado é o cuidado às crianças de 1 a 4 anos de idade do estado, as quais têm um número de notificações que merecem a atenção. Também se sugere a promoção de campanhas que visem estancar e diminuir as notificações nessa faixa etária que, segundo os dados, é o intervalo de idade mais afetado, entre as crianças, por queimaduras no Ceará.
Conclusão
Os resultados da pesquisa apontam que o perfil de casos no Ceará é de homens pardos, entre 20 e 59 anos, corroborando a necessidade de atenção das autoridades locais a respeito desse tema. Além disso, existe uma faixa etária fora da maioria populacional de casos, que também precisa ser avaliada.
Este estudo, dessa maneira, enriquece a comunidade cien-tífica, preenchendo uma lacuna de artigos que abordam o estado do Ceará a respeito dessa temática e abrangência. Além disso, acentua-se a necessidade de programas ou projetos de promoção à saúde para a minimização dessa conjuntura.
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1. Curso de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual do Ceará,
Fortaleza, CE, Brazil
2. Faculdade de Ciências da Saúde do Sertão Central (Facisc), Universidade Estadual
do Ceará, Quixeramobin, CE, Brasil
Address for correspondence Benjamim Antônio Pinheiro Vieira, Universidade Estadual do Ceará, Curso de Medicina, Fortaleza, CE, Brasil (e-mail: benjamim.vieira@aluno.uece.br).
Artigo submetido: 25/01/2025.
Artigo aceito: 14/07/2025.
Conflito de Interesses
Os autores não têm conflito de interesses a declarar.






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