Original Article - Year 2026 - Volume 41Issue 1
Lipoenxertia glútea subcutânea: O papel do ultrassom intraoperatório na determinação segura do plano
Subcutaneous Gluteal Fat Grafting: The Role of Intraoperative Ultrasound in the Safe Determination of the Plane
RESUMO
Introdução A lipoenxertia glútea é amplamente utilizada para a remodelação corporal, impulsionada por padrões estéticos e pelas redes sociais. No entanto, complicações como embolia gordurosa têm sido relatadas, especialmente nos Estados Unidos. Para aumentar a segurança do procedimento, desenvolveu-se a técnica guiada por ultrassonografia, que permite a deposição precisa da gordura na região subcutânea profunda sem alcançar a camada muscular, o que reduz os riscos.
Materiais e Métodos Entre abril de 2022 e dezembro de 2024, foram analisadas 148 pacientes submetidas à lipoenxertia glútea guiada por ultrassom. Pacientes com prótese glútea, histórico de aplicação de substâncias preenchedoras e doenças vasculares foram excluídas. Os dados coletados incluíram idade, volume enxertado e complicações. A técnica seguiu a metodologia de injeção estática, migração e estabilização (static injection, migration, and stabilization, SIME, em inglês), que permite a visualização em tempo real das estruturas anatômicas para garantir a deposição segura da gordura acima da fáscia muscular.
Resultados A idade média das pacientes foi de 33,7 (variação: 23-45) anos, com enxertia média de 350 (variação: 300-600) mL por nádega. Nenhuma paciente apresentou embolia gordurosa ou pulmonar. Foram registrados dois casos de deiscência de pontos, três de enxertia adicional para simetrização, dois de seroma e dois de necrose gordurosa.
Conclusão A técnica de lipoenxertia guiada por ultrassonografia que utiliza o método SIME demonstrou-se segura e eficaz, pois reduziu significativamente o risco de complicações graves. O uso do ultrassom permite maior controle da deposição da gordura, o que aumenta a previsibilidade e segurança do procedimento.
Palavras-chave: cirurgia plástica; lipectomia; nádegas; segurança; ultrassonografia
ABSTRACT
Introduction Materials and
Methods From April 2022 to December 2024, 148 female patients who underwent ultrasound-guided gluteal fat grafting were analyzed. The patients with gluteal implants, a history of filler injections, or vascular diseases were excluded. The data collected included age, grafted volume, and complications. The procedure followed the static injection, migration, and equalization (SIME) methodology, enabling real-time visualization of anatomical structures to ensure safe fat deposition above the muscular fascia.
Results The mean age of the patients was of 33.7 (range: 23-45) years, and the mean fat volume grafted per buttock was of 350 (range: 300-600) mL. No patients experienced severe complications, such as fat or pulmonary embolism. There were two cases of wound dehiscence, three cases requiring additional grafting for symmetry, two cases of seroma, and two cases of fat necrosis.
Conclusion Ultrasound-guided fat grafting using the SIME method proved to be a safe and effective technique, significantly reducing the risk of severe complications. The ultrasound provides enhanced control over fat deposition, improving the predictability and safety of the procedure.
Keywords: buttocks; lipectomy; safety; surgery; plastic; ultrasonography
Introdução
A lipoenxertia glútea é uma técnica amplamente divulgada e praticada na atualidade, especialmente na cultura ocidental. A volumização da região glútea está associada a conceitos de beleza e feminilidade, e reflete padrões históricos que valorizam essa área como símbolo de fertilidade. Historicamente, um volume avantajado nessa região está ligado à ideia de uma mulher fértil, o que contribui para a popularidade do aumento de volume dessa área.1
A harmonia entre cintura e quadril confere um capital erótico atrativo para a população feminina, com medidas proporcionais entre essas regiões frequentemente próximas a uma relação de 0,7. Esse padrão é amplamente desejado por grande parte das mulheres latino-americanas.2
Nos últimos anos, o ideal de beleza impulsionado pelas redes sociais gerou um aumento significativo nos procedimentos estéticos voltados para a região glútea.3-5 Segundo dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS),4 entre 2018 e 2022, a popularidade desse procedimento cresceu 137%. A lipoenxertia glútea tem um papel relevante na cirurgia de contorno corporal, e pesquisas, como as de Cansancao et al.6 e Pazmiño e Del Vecchio,7 demonstram a utilização da ultrassonografia para o posicionamento adequado da gordura durante o procedimento.
Entretanto, o aumento da prática da lipoenxertia também levanta preocupações relacionadas à embolia gordurosa, uma complicação grave que tem resultado em óbitos, conforme relatado em estudos realizados nos Estados Unidos da América (EUA).8,9
Diante desse cenário, este estudo tem como objetivo descrever a técnica de lipoenxertia na região subcutânea profunda com o auxílio da ultrassonografia, para aumentar a precisão do plano de enxertia e, por consequência, a segurança desse procedimento.
Materiais e Métodos
Este é um estudo observacional e prospectivo de uma série de casos. Foram selecionados pacientes submetidos à lipoenxertia da região glútea após lipoaspiração, de abril de 2022 a dezembro de 2024. Foram excluídos pacientes com prótese glútea, aqueles com histórico de aplicação de substâncias na região glútea, como polimetilmetacrilato, além de pacientes com doenças vasculares e síndromes pró-coagulantes. No cálculo amostral inicial para um IC95%, consideramos um número inicial de 140 pacientes.
Os dados coletados incluíram sexo, idade, volume enxertado e complicações, e foram expressos em termos de valores de média, variação e frequências absoluta e relativa. Essas informações foram tabuladas no programa Excel (Microsoft Corp.) e analisadas por meio do programa IBM SPSS Statistics for Windows (IBM Corp.), versão 23.0. O estudo foi aprovado por um comitê de ética pela plataforma Brasil, sob o CAAE 89713625.3.0000.0237.
Anatomia da região
Classicamente, essa região é caracterizada pela presença de duas fáscias e duas camadas de tecido subcutâneo com gordura. Na avaliação ultrassonográfica, é possível visualizar uma fáscia mais fina e elástica, e outra, mais espessa. A fáscia mais fina divide o tecido subcutâneo em duas camadas, e forma a região onde a gordura será depositada (►Fig. 1).
Descrição da técnica
Após a lipoaspiração, a gordura é coletada em um recipiente fechado e preparada por decantação até o término do procedimento.
Com a paciente em decúbito ventral, inicia-se a avaliação das camadas superficiais utilizando um ultrassom portátil com sonda linear e frequência de 10 Hz, o que permite a localização das camadas do tecido subcutâneo.9
As estruturas anatômicas da região glútea são visualizadas em um iPad (Apple Inc.) de décima geração, via ultrassom Wi-Fi. Esse exame permite a identificação das seguintes camadas: pele, derme, gordura superficial, fáscia glútea superficial (ou fáscia de Scarpa), gordura profunda e fáscia glútea profunda. Esta última está localizada logo acima da musculatura, e deve ser evitada a todo custo. Idealmente, o enxerto de gordura deve ser depositado na camada de gordura profunda. A preservação da fáscia glútea profunda, aliada a incisões menores do que 1 cm, previne a migração da gordura para o plano muscular.9,10
A aplicação é realizada segundo a técnica descrita por Pazmiño e Del Vecchio,7 que envolve injeção estática, migração e estabilização (static injection, migration, and stabilization, SIME, em inglês) sob visualização direta com cânula para lipoenxertia de número 3. Com a mão esquerda, o cirurgião manipula a sonda do ultrassom para permitir a visualização da área de enxertia, ao passo que a mão direita injeta a gordura na camada profunda com uma seringa (►Fig. 2). Alternativamente, um auxiliar pode segurar a sonda enquanto o cirurgião realiza a injeção da gordura.
Resultados
Foram analisadas 148 pacientes do sexo feminino submetidas à lipoenxertia glútea guiada por ultrassom. A média de idade foi de 33,7 (variação: 23-45) anos.
As pacientes receberam, em média, 350 (variação: 300- 600) mL de gordura enxertada em cada lado da nádega (►Tabela 1). Nenhuma paciente apresentou complicações como hematoma, necrose ou infecção. Entretanto, dois casos de deiscência de pontos na região interglútea foram registrados, assim como três casos de necessidade de enxertia adicional para simetrização. Também foram observados dois casos de seroma e dois de necrose gordurosa. Não houve relatos de embolia gordurosa ou pulmonar.
| Média | Variação | |
|---|---|---|
| Idade (anos) | 33,7 | 23-45 |
| Volume enxertado por área (mL) | 350 | 300-600 |
| Complicações | N (frequência absoluta) | % (frequência relativa) |
| Deiscência de pontos | 2 | 1,35 |
| Assimetria | 3 | 2,02 |
| Seroma | 2 | 1,35 |
| Liponecrose | 2 | 1,35 |
Discussão
A mortalidade em cirurgia plástica é um tema de extrema relevância, pois impacta não apenas as famílias dos pacientes, como também os cirurgiões e suas equipes, independentemente das causas envolvidas. Estudos sobre mortalidade relacionada à embolia gordurosa passaram a ser publicados com maior frequência a partir de 2015; Astarita et al.,11 por exemplo, descreveram um caso ocorrido na Califórnia, EUA. Posteriormente, Cárdenas-Camarena et al.12 publicaram um dos estudos forenses mais abrangentes sobre o tema, em que foram analisados casos no México e na Colômbia, e identificada a presença de gordura nos vasos pulmonares como um dos achados mais relevantes.
Nos últimos anos, devido ao aumento de mortes registradas no estado da Flórida, EUA, foram conduzidos diversos estudos para investigar as causas desses óbitos e fornecer informações relevantes para cirurgiões e pacientes interessados nesse procedimento.8,13 As investigações evidenciaram a importância de realizar a lipoenxertia na região glútea acima da fáscia muscular, ou seja, exclusivamente na região subcutânea, a fim de evitar a embolia gordurosa por penetração da gordura nos vasos glúteos.
A Aesthetic Surgery Education and Research Foundation (ASERF) Task Force on Gluteal Fat Grafting8 (Força-Tarefa da ASERF sobre Lipoenxertia Glútea) fez diversas recomendações, tais como evitar a lipoenxertia intramuscular, utilizar cânulas de injeção com diâmetro superior a 4 mm, evitar a angulação para baixo da cânula e posicionar o paciente de forma a minimizar o risco de injeção profunda. No entanto, essas diretrizes mostraram-se insuficientes para prevenir completamente a embolia gordurosa, especialmente após os episódios ocorridos em Miami, o que impulsionou a busca por abordagens mais seguras e eficazes. Nesse contexto, Cansancao et al.6 e Pazmiño e Del Vecchio,7 descreveram técnicas que visam aprimorar a segurança do procedimento mediante a utilização de ultrassom intraoperatório para se certificar de que a gordura enxertada ficará localizada no plano subcutâneo.
Este estudo se baseia na utilização do ultrassom com a metodologia SIME,7 que possibilita a observação direta da lipoenxertia guiada por ultrassonografia. Esse método permite a identificação precisa das divisões e compartimentos anatômicos da região glútea, requer um conhecimento detalhado da anatomia local, e garante que o enxerto de gordura seja depositado exclusivamente no plano subcutâneo, acima da fáscia muscular. Essa visualização direta14 proporciona um nível superior de segurança, pois permite monitorar em tempo real o posicionamento do enxerto de gordura, o que evita a aplicação às cegas.
Na descrição de Carpaneda e Ribeiro15 sobre a enxertia de gordura, os autores destacam que, para reduzir a taxa de reabsorção, o ideal é utilizar enxertos cilíndricos com diâmetro não superior a 2 mm. Em contrapartida, na técnica descrita por Pazmiño e Del Vecchio,16 a gordura é retroinjetada em volumes mais abundantes, que superam essa espessura recomendada, o que permite a aplicação de grandes volumes com taxas razoáveis de absorção sem comprometer a viabilidade do enxerto. Aparentemente, essa abordagem permite a sobrevivência do tecido enxertado mesmo quando aplicado em bolus no tecido subcutâneo.
Estudos sobre a prevenção da embolia gordurosa7,8,16,17 fornecem orientações para os cirurgiões sobre como evitar a infusão de gordura nos capilares venosos, o que poderia levar à obstrução dos vasos pulmonares e consequente comprometimento respiratório. O enfoque das sociedades médicas deve ser a segurança na lipoenxertia, para garantir a deposição da gordura no plano adequado, utilizando a visualização direta por ultrassonografia e capacitando as equipes médicas para o rápido reconhecimento dos sinais da síndrome de embolia gordurosa. É importante ressaltar que, especificamente na lipoaspiração e na lipoenxertia, essa complicação ocorre no período intraoperatório, ao passo que, nos casos de fratura óssea, pode surgir dias após o trauma.
Conclusão
A utilização da técnica SIME de lipoenxertia guiada por ultrassom apresenta-se como uma abordagem segura e eficaz para a realização de lipoenxertia glútea na região subcutânea profunda, devido à observação direta em tempo real. Esse método, descrito como redutor significativo do risco de embolia gordurosa, pode proporcionar maior previsibilidade e segurança para os cirurgiões plásticos e seus pacientes. Estudos multicêntricos devem ser realizados com o intuito de estabelecer esta técnica como referência na lipoenxertia da região glútea.
REFERENCES
1. De la Peña JA, Rubio OV, Cano JP, Cedillo MC, Garcés MT. History of gluteal augmentation. Clin Plast Surg 2006;33(03):307-319. Doi: 10.1016/j.cps.2006.04.003
2. Singh D. Universal allure of the hourglass figure: an evolutionary theory of female physical attractiveness. Clin Plast Surg 2006;33 (03):359-370. Doi: 10.1016/j.cps.2006.05.007
3. Vendramin FS, Soares DAdS, Dias MDS, Costa LDd. Gluteoplastia com enxerto de gordura: experiência em 137 pacientes. Rev Bras Cir Plást 2022;37(02):169-176. Doi: 10.5935/2177-1235.2022RBCP0028
4. International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) ISAPS International Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures. Amsterdam: ISAPS; 2023. Available from: https://www.isaps.org/media/a0qfm4h3/isaps-global-survey_2022.pdf
5. American Society of Plastic Surgeons (ASPS) 2018. Plastic Surgery Statistics Report. Arlington Heights, IL: ASPS; 2019. Available from:https://www.plasticsurgery.org/documents/News/Statistics/2018/plastic-surgery-statistics-full-report-2018.pdf
6. Cansancao AL, Condé-Green A, David JA, Vidigal RA. Subcutaneous-Only Gluteal Fat Grafting: A Prospective Study of the Long- Term Results with Ultrasound Analysis. Plast Reconstr Surg 2019; 143(02):447-451. Doi: 10.1097/prs.0000000000005203
7. Pazmiño P, Del Vecchio D. Static Injection, Migration, and Equalization (SIME): A New Paradigm for Safe Ultrasound-Guided Brazilian Butt Lift: Safer, Faster, Better. Aesthet Surg J 2023;43 (11):1295-1306. Doi: 10.1093/asj/sjad142
8. Mofid MM, Teitelbaum S, Suissa D, et al. Report on Mortality from Gluteal Fat Grafting: Recommendations from the ASERF Task Force. Aesthet Surg J 2017;37(07):796-806. Doi: 10.1093/asj/sjx004
9. Kenkel JM, Polo M, Pazmiño P, Garcia O. Brazilian Butt Lift Safety and Florida Legislature: What You Should Know, How You Can Help. Aesthet Surg J Open Forum 2023;5:ojad041. Doi: 10.1093/ asjof/ojad041
10. Frojo G, Halani SH, Pessa JE, et al. Deep Subcutaneous Gluteal Fat Compartments: Anatomy and Clinical Implications. Aesthet Surg J 2023;43(01):76-83. Doi: 10.1093/asj/sjac230
11. Astarita DC, Scheinin LA, Sathyavagiswaran L. Fat transfer and fatal macroembolization. J ForensicSci2015;60(02):509-510. Doi: 10.1111/1556-4029.12549
12. Cárdenas-Camarena L, Bayter JE, Aguirre-Serrano H, Cuenca- Pardo J. Deaths Caused by Gluteal Lipoinjection: What Are We Doing Wrong? Plast Reconstr Surg 2015;136(01):58-66. Doi: 10.1097/PRS.0000000000001364
13. Rapkiewicz AV, Kenerson K, Hutchins KD, Garavan F, Lew EO, Shuman MJ. Fatal Complications of Aesthetic Techniques: The Gluteal Region. J Forensic Sci 2018;63(05):1406-1412. Doi: 10.1111/1556-4029.13761
14. Kelishadi SS, Chiemi JA, Chowdhry S, et al. Accurate Plane Fat Grafting in Gluteal Augmentation: An Anatomic Study. Aesthet Surg J 2024;44(03):311-316. Doi: 10.1093/asj/sjad298
15. Carpaneda CA, Ribeiro MT. Percentage of graft viability versus injected volume in adipose autotransplants. Aesthetic Plast Surg 1994;18(01):17-19. Doi: 10.1007/BF00444242
16. Pazmiño P, Del Vecchio D. Safety in Gluteal Augmentation. Clin Plast Surg 2023;50(04):521-523. Doi: 10.1016/j.cps.2023.07.001
17. Freitas RS, Graf R, Ono MCC, et al. Profilaxia da síndrome de embolia gordurosa: uma análise atual. Rev Bras Cir Plást 2016;31 (03):436-441. Doi: 10.5935/2177-1235.2016RBCP0072
1. Instituto de Cirurgia Plástica Arruda, Hospital Santa Helena, - Goiânia, GO, Brasil
Endereço para correspondência Fabiano Calixto Fortes de Arruda, Instituto de Cirurgia Plástica Arruda, Hospital Santa Helena, Goiânia, GO, Brasil (e-mail: dr.fabianoarruda@gmail.com).
Article received: October 13, 2024.
Article accepted: October 13, 2025.
Conflito de interesses
O autor não tem conflito de interesses a declarar.








Read in Portuguese
Read in English
PDF PT
Print
Send this article by email
How to Cite
Mendeley
Pocket
Twitter