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Articles - Year 2019 - Volume 34 - (Suppl.3)

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2019RBCP0190

RESUMO

Introdução: O câncer de pele localiza-se com mais frequência na face, causando morbidade tanto funcional quanto estética aos pacientes, e a ressecção oncológica da lesão provoca, muitas vezes, grandes defeitos que necessitam de reconstruções complexas. O retalho miocutâneo transverso do platisma, apesar de pouco relatado na literatura, mostrouse uma boa opção para a reconstrução de perdas do terço médio e inferior da face.
Método: Neste estudo foram relatados 2 casos de pacientes com lesões extensas em hemiface, resultando em grandes defeitos, que foram cobertos com o retalho miocutâneo transverso do platisma.
Resultados: Não houve complicações pós-operatórias e os retalhos evoluíram com boa perfusão sem áreas de necrose.
Conclusão: O retalho miocutâneo transverso do platisma, mostrou-se uma excelente opção para cobertura de grandes defeitos em terço médio e inferior de face.

Palavras-chave: Retalhos cirúrgicos; Neoplasias de cabeça e pescoço; Procedimentos cirúrgicos reconstrutivos; Músculos do pescoço; Neoplasias cutâneas


INTRODUÇÃO

O câncer de pele não melanoma é o mais comum no Brasil e no mundo. Para o Brasil, estimam-se 165.580 casos novos de câncer de pele não melanoma para cada ano do biênio 2018-20191.

Este tipo de câncer localiza-se com mais frequência na face, causando morbidade tanto funcional quanto estética aos pacientes2. O tratamento tem como objetivo a ressecção oncológica da lesão, preservando a função e causando a menor deformidade possível3.

Entretanto, os defeitos craniofaciais e do terço médio da face após extensas ressecções tumorais têm consequências funcionais e estéticas substanciais4.

Apesar da existência de muitas técnicas para o reparo destes defeitos, a reconstrução ideal depende da avaliação criteriosa de cada caso clínico e tem por finalidade alcançar o melhor resultado, tanto funcional como estético, com mínima morbidade na área doadora e ao paciente5.

O retalho miocutâneo transverso do platisma, apesar de pouco relatado na literatura, mostrou-se uma boa opção para a reconstrução de perdas do terço médio e inferior da face, como será demonstrado nos casos a seguir6.

OBJETIVO

Relatar dois casos em que foram utilizados o retalho miocutâneo transverso do platisma, para reconstrução de grandes defeitos do terço médio e inferior da face.

RELATO DE CASO

O caso 1 trata-se de uma paciente do sexo feminino, de 87 anos, que apresentou uma lesão vegetante com cerca de 3 anos de evolução, medindo 9cm em seu maior diâmetro, localizada em terço médio e superior da hemiface esquerda, com invasão da mucosa bulbar ocular (Figura 1).

Figura 1 - Carcinoma espinocelular acometendo terços superior, médio e inferior de hemiface esquerda.

Foi realizada a excisão da lesão com margens oncológicas, sem a preservação do periósteo e exanteração de órbita, com esvaziamento das cadeias linfonodais cervicais ipsilaterais (Figura 2).

Figura 2 - Defeito após a ressecção oncológica do tumor em hemiface esquerda e retalho miocutâneo transverso do platisma dissecado.

Para a cobertura do defeito do terço superior foi confeccionado o retalho médio frontal, baseado nas artérias supraorbitária e supratroclear e para cobertura do terço médio foi confeccionado o retalho miocutâneo transverso do platisma, ipsilaterais ao defeito (Figura 3).

Figura 3 - Pós-operatório imediato à esquerda; e à direita o resultado após 9 meses da ressecção da lesão tumoral, e reconstrução com retalhos médio-frontal e miocutâneo transverso do platisma ipsilaterais.

O caso 2 refere-se a um paciente do sexo masculino, de 82 anos, com uma lesão vegetante, medindo cerca de 12cm em seu maior diâmetro, localizado em terço médio e inferior da hemiface esquerda, com acometimento de orelha externa (Figura 4).

Figura 4 - Carcinoma espinocelular extenso em hemiface esquerda, com invasão de orelha externa.

A excisão foi realizada com margens oncológicas, juntamente com amputação da orelha externa, porém conseguiu-se preservar o periósteo temporal (Figura 5).

Figura 5 - À esquerda o defeito após a ressecção oncológica do tumor; e à direita o pós-operatório imediato da reconstrução com enxerto de pele total em regiões infraorbitária e temporal, e retalho miocutâneo transverso do platisma em região inferior de hemiface.

Para reconstrução, foi realizada, na região temporal, a enxertia de pele total retirada da região abdominal, e para a cobertura do terço médio-inferior foi utilizado o retalho miocutâneo transverso do platisma (Figura 6).

Figura 6 - Pós-operatório após 9 meses.

Técnica cirúrgica

Após ressecção da neoplasia com margens oncológicas, o retalho miocutâneo transverso do platisma foi planejado para que sua base estivesse na extremidade lateral do pescoço, na zona infra-parotídea e sobre a borda posterior do terço médio do músculo esternocleidomastoideo, de onde emergem suas perfurantes.

A extensão do retalho em ambos os casos foi calculada de acordo com o defeito a ser coberto e de modo a não ultrapassar 2cm da linha média cervical. O diâmetro supero-inferior do retalho foi calculado através do pinçamento bidigital de maneira que alcançasse o maior diâmetro de base possível, na medida em que o defeito da área doadora pudesse ser fechado com síntese primária.

Os retalhos foram levantados da maneira acima descrita incluindo pele, tecido celular subcutâneo, platisma e fáscia adipofascial profunda, com preservação das perfurantes e da veia jugular externa. As medidas dos retalhos foram respectivamente: 5x11cm e 6x10cm. O esvaziamento cervical foi realizado logo após. A áreas doadoras foram fechadas através de síntese primária e os retalhos posicionados para cobertura dos defeitos.

RESULTADOS

Os tumores foram ressecados com margens livres e tiveram o estudo anatomopatológico evidenciando carcinoma espinocelular invasivo moderadamente diferenciado em ambos os casos. Não houve complicações pós-operatórias, e os retalhos evoluíram com boa perfusão, sem áreas de necrose. Foi observada diferença de coloração do retalho em relação a pele da face nos dois casos e ectrópio no segundo caso.

DISCUSSÃO

O músculo platisma é um músculo cuticular que ocupa grande parte do segmento anterolateral do pescoço. Trata-se de um músculo achatado que tem um pedículo arterial dominante proveniente da artéria submentoniana, além de irrigação arterial acessória vinda do tronco tireocervical7.

Desde o seu primeiro uso relatado pelo cirurgião austríaco Robert Gersuny, no século XIX e sua introdução na literatura em 1978, por Futrell et al., o retalho miocutâneo do platisma ganhou notoriedade crescente8-14.

Através do plano pele-subcutâneo-platismal do segmento anterolateral do pescoço observa-se a presença de ramos das artérias submentoniana, facial, tireoidiana superior, cervical transversa e occipital. Portanto, com a observação de ramos arteriais nas camadas adipofasciais mais profundas, que penetram no músculo platisma e fornecem sangue para o plexo subdérmico, os retalhos de platisma devem ser considerados fasciomiocutâneos, em vez de retalhos miocutâneos15.

Sua confecção se baseia em uma faixa miocutânea no sentido transversal, com pedículo largo, podendo avançar até 1 - 3cm além da linha média6.

Os retalhos realizados neste estudo foram confeccionados utilizando como base a região cervical lateral superior, com bons resultados. Entretanto um estudo recente mostrou que um maior número de perfurantes platismais foi identificado na região medial superior, seguido pela região média medial e região lateral superior em indivíduos caucásicos, enquanto a maioria das perfurantes pôde ser identificada na região lateral superior em asiáticos, seguida pela medial média e região medial superior16.

Devido a idade avançada dos pacientes, comorbidades associadas e a doença consumptiva, optou-se pelas estratégias reconstrutivas mais rápidas.

O retalho miocutâneo transverso do platisma, foi escolhido para o auxílio na reconstrução destes casos por se tratar de um retalho de fácil obtenção, rápida execução e com baixa morbidade à área doadora14.

Observou-se também que é um retalho que facilita a linfadenectomia das cadeias linfonodais cervicais.

CONCLUSÃO

O retalho miocutâneo transverso do platisma, mostrou-se uma boa opção para cobertura de grandes defeitos em terço médio e inferior de face quando há preservação do arcabouço ósseo. As vantagens observadas foram a facilidade de execução, a síntese primária da área doadora e a facilitação para o esvaziamento cervical.

REFERÊNCIAS

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1. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Brasil.
2. Universida de Federal de Sergipe Campus São Cristóvão, São Cristóvão, SE, Brasil.
3. Universidade Federal do Vale do São Francisco, Centro, Petrolina, PE, Brasil.
4. Hospital de Urgência de Sergipe, Aracaju, SE, Brasil.
5. Sociedade Brasileira de Dermatologia, SE, Brasil.
6. Hospital Federal de Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Endereço Autor: Hianga Fayssa Fernandes Siqueira, Rua Orlando Magalhães Maia, número 1224, apartamento 901, torre Luxemburgo, Jardins, Aracaju, SE, Brasil. CEP 49025-530. E-mail: hfayssa@hotmail.com

 

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