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Articles - Year 2019 - Volume 34 - (Suppl.3)

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2019RBCP0166

RESUMO

Introdução: O número de procedimentos de cosmiatria aumentou bastante nos consultórios de cirurgia plástica. É competência dos serviços de residência capacitar seus residentes para atuarem em todas as áreas.
Objetivos: Avaliar como se dá o ensino de cosmiatria nas residências de cirurgia plástica na região Nordeste do Brasil e como os residentes tem avaliado seus conhecimentos nessa área.
Método: Trata-se de um estudo descritivo de pesquisa quantitativa e qualitativa, transversal com questionário aplicado aos residentes em treinamento. Resultados: 97,8% dos participantes classificaram com notas acima de 7 a importância do ensino na cosmiatria, mas apenas 17% afirmaram haver seu ensino durante a residência, sendo a autoavaliação sobre seu conhecimento de 68,1%, com nota 5 ou inferior.
Discussão: O ensino da cosmiatria nas residências nordestinas encontra-se em caráter inexistente ou inicial.
Conclusão: Os residentes se autoavaliaram com conhecimentos insuficientes e referiram ser possível melhorar o ensino de cosmiatria.

Palavras-chave: Internato e residência; Hospitais de ensino; Cirurgia plástica; Toxinas botulínicas tipo A; Ácido hialurônico; Abrasão química


INTRODUÇÃO

Com o crescente aumento da busca por procedimentos antienvelhecimento, os procedimentos estéticos não cirúrgicos (ancilares) estão entre os mais procurados pelos pacientes no consultório do cirurgião plástico. Segundo o Censo de 2016, realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o número de procedimentos estéticos não cirúrgicos aumentou 390% em 2 anos nestes consultórios.

Dados apresentados pela pesquisa online encomendada pela SBCP - Regional de São Paulo (SP) em 2016-2017, entre 1.500 entrevistados, 11% já haviam realizado alguma cirurgia plástica, destes 30% submeteram-se a mais de um procedimento. De todos os entrevistados, 13% já realizaram algum procedimento estético facial não cirúrgico, como toxina botulínica, preenchimentos, peeling ou outros, sendo que outros 44% tinham interesse em fazer algum procedimento ancilar1.

Foi determinado pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), no uso das atribuições que lhe conferem a Lei nº 6.932 de 07 de julho de 1981, o Decreto nº 7.562, de 15 de setembro de 2011, e o Decreto 8.516, de 10 de setembro de 2015 e aprimorado pela resolução Nº 7, de 08 de abril de 2019, que é competência dos serviços e residências de cirurgia plástica capacitar seus residentes para atuarem em todas as áreas da cirurgia plástica. Portanto, ao fim dos 3 anos de especialização da residência médica, o cirurgião plástico deve dominar, entre outras, as técnicas de procedimentos ancilares: preenchimentos, toxina botulínica, laser e dermoabrasão (resurfacing)2. Parte da grade curricular da residência médica em cirurgia plástica deve ser dedicada ao ensino da cosmiatria, para formar o cirurgião plástico brasileiro de forma completa3.

Existe atualmente no Nordeste brasileiro 8 serviços credenciados pela SBCP e pelo Ministério de Educação (MEC), 7 destes com atividades desenvolvidas em hospitais pela rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Com o aumento da demanda de procedimentos estéticos de cosmiatria a procura pelo aperfeiçoamento na área é crescente entre os residentes da cirurgia plástica.

OBJETIVO

Avaliar como se dá o ensino de cosmiatria nas residências médicas de cirurgia plástica na região Nordeste e como os residentes tem avaliado seus conhecimentos nessa área.

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo de pesquisa quantitativa e qualitativa, transversal com questionário aplicado no mês de maio e junho de 2019, através de questionário eletrônico enviado via e-mail, contendo 12 perguntas (algumas com subitens) aos residentes em treinamento de cirurgia plástica dos serviços credenciados dos estados do Ceará, Pernambuco e Bahia, os únicos estados do Norte e Nordeste brasileiro com serviços credenciados pela SBCP e MEC. Foi utilizado como critério de exclusão a participação no atual trabalho e análise dos dados, portanto sendo excluídos 3 residentes, um de cada estado participante.

Os questionários foram respondidos de forma anônima. As respostas foram enviadas através do programa Google Forms, sendo a análise estatística através deste.

As perguntas apresentaram-se em sua maioria de múltipla escolha e algumas em escala com notas de 0 a 10, foi considerado 0 a nota mais baixa e 10 a nota mais alta.

O questionário aborda, dentre outros aspectos, a existência ou não de ensino de cosmiatria nas suas residências e como esse é realizado, qual a percepção de importância e interesse do residente por essa área, fazendo também os residentes uma autoavaliação dos seus conhecimentos.

RESULTADOS

Atualmente, no Nordeste brasileiro, existem 54 residentes inscritos nos programas de residência médica de cirurgia plástica credenciados pela SBCP e MEC.

O questionário foi respondido em 87% dos residentes matriculados (47 dos 54 residentes), sendo excluídos os 3 participantes do atual trabalho, atingindo um índice de participação de 92,15% dos residentes elegíveis (47 dos 51 residentes).

Quando questionados sobre qual é a importância do ensino da cosmiatria na sua formação, 97,8% dos participantes classificaram com notas acima de 7 (Figura 1); e, sobre o interesse desses nessa área, 91,5% quantificaram seu interesse com notas acima de 7 (Figura 2).

Figura 1 - Resultado da pergunta número 2.

Figura 2 - Resultado da pergunta número 3.

Apenas 17% dos residentes afirmaram haver ensino de cosmiatria durante a residência e todos afirmam ser possível melhorar o ensino (Figura 3). E, 62,5% desses responderam que o ensino se deu apenas na forma de aplicação de aulas sobre o tema.

Figura 3 - Resultado da pergunta número 4.

Dos residentes que relataram não haver ensino de cosmiatria na sua residência médica, 95,3% afirmaram ser possível desenvolver esse ensino nos seus hospitais (Figura 4).

Figura 4 - Resultado da pergunta número 4.4.

53,2% dos participantes relataram já ter realizado algum curso de cosmiatria, no entanto desses apenas 18,5% referiram ter realizado o curso no estado da sua residência médica. Apenas 31,9% referiram conhecer algum curso, workshop e/ou pós-graduação dessa área no seu estado.

Quando questionados sobre a nota com a qual o residente se autoavaliava, sobre seu conhecimento geral de cosmiatria, 6,4% classificaram seu conhecimento com nota 8 ou superior, sendo que 68,1% dos residentes consideram seu conhecimento nota 5 ou inferior (Figura 5). Esse padrão de autoavaliação se mostrou de forma semelhante quando perguntados especificamente sobre o conhecimento em aplicação de toxina botulínica, preenchedores dérmicos, peelings químicos e uso de laser.

Figura 5 - Resultado da pergunta número 8.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

A pesquisa encomendada pela SBCP - Regional SP, em 2016/2017, sobre “a impressão do brasileiro sobre a cirurgia plástica”, mostrou que 69%, dos procedimentos estéticos faciais foram realizados com um médico, sendo 72% com um dermatologista e, apenas, 6% com um cirurgião plástico, sendo o procedimento estético não cirúrgico mais comumente utilizado a toxina botulínica, perfazendo 96,4% do total1. Esses dados levantam questionamentos sobre o porquê de os dermatologistas serem os mais procurados para a realização de procedimentos ancilares.

O estudo realizado com os residentes do Nordeste brasileiro mostra de maneira local como está se desenvolvendo o ensino da cosmiatria na região. Sendo identificado que o ensino da cosmiatria nas residências nordestinas encontra-se em caráter inexistente ou inicial e, quando realizado, dá-se na maioria das vezes de forma teórica, sem abordagens práticas do assunto, podendo ser questionado se esse ensino é satisfatório para o domínio dessa área de forma satisfatória. Visto que aliado a uma boa carga teórica é bastante importante a prática para se sedimentar e adquirir confiança, além de domínio nos procedimentos, sejam eles cirúrgicos ou não3,4,5.

Quando questionados sobre o domínio do assunto, a grande maioria dos residentes julgou que seus conhecimentos na área são insuficientes, o que se deve à falta ou baixa abordagem de um assunto tão importante na sua formação6,7.

A partir desses dados, nota-se uma discrepância entre o crescente uso da cosmiatria no campo da medicina e o julgamento dos residentes de cirurgia plástica do Nordeste sobre os seus conhecimentos na área, estando os residentes terminando a sua especialização na residência médica sem segurança na aplicação correta da cosmiatria.

Os residentes apontaram um ensino baixo da área da cosmiatria nas suas residências médicas, a grande maioria relatou não ter atividades práticas ou ter realizado cursos no estado de suas residências médicas, atividades fundamentais para o domínio desses procedimentos não-cirúrgicos.

Todos os residentes referiram ser possível melhorar o ensino de cosmiatria e a grande maioria se autoavaliou com baixo conhecimento nessa área.

REFERÊNCIAS

1. Steffen N. Panorama atual da prática estética no país. II Encontro Nacional dos Con-selhos de Medicina - SBCP; 2018. Disponível em: http://portal.cfm.org.br/images/PDF/2018_encm_niveo_steffen.pdf

2. Ministério da Educação (BR). Secretaria de Educação Superior. Resolução nº 7, de 8 de abril de 2019. Dispõe sobre a matriz de competências dos Programas de Residência Médica em Cirurgia Plástica no Brasil. Diário Oficial da União, Brasília (DF), 11 abr 2019: Edição 70: Seção 1: 199.

3. Ruiz RO, et al. Metodologia do ensino para o treinamento do tratamento não cirúrgi-co da área de sulco nasogeniano e região peribucal para residentes de cirurgia plástica. Rev Bras Cir Plást. 2007;22(2):67-75.

4. Marcondes CA, Pessoa SGP, Pessoa BBGP, Dias IS, Guimarães MGM. Padroniza-ção técnica no treinamento em microcirurgia do serviço de cirurgia plástica e microci-rurgia reconstrutiva do hospital universitário Walter Cantídio da Universidade Federal do Ceará (HUWC/UFC). Rev Bras Cir Plást. 2014;29(2):283-8.

5. Lima DA, et al. Gluteoplastia de aumento: a importância do ensino na formação atual do residente frente à demanda crescente. Rev Bras Cir Plást. 2011;26(1):127-33. DOI: https://doi.org/10.1590/S1983-51752011000100023

6. Wong M, Jones S, Sheikh H, James N. The effect of the new deal on the operative experience of plastic surgical SHOs. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2006;59(3):311-2. PMID: 16673549 DOI: https://doi.org/10.1016/j.bjps.2005.09.009

7. Batista KT, Pacheco LMS, Silva LM. Avaliação dos programas de residência médica em Cirurgia Plástica no Distrito Federal. Rev Bras Cir Plást. 2013 Mar;28(1):20-8. DOI: https://doi.org/10.1590/S1983-51752013000100005











1. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Brasil.
2. Instituto Doutor José Frota, Fortaleza, CE, Brasil.
3. Hospital Universitário Professor Edgard Santos, Salvador, BA, Brasil.
4. Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, Recife, PE, Brasil.

Endereço Autor: Flávius Vinícius Cabral Soares, Rua Barão do Rio Branco, 1816, Centro, Fortaleza, CE, Brasil. CEP: 60025-061. E-mail: flaviuscabral@yahoo.com.br

 

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