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Face I - Year2018 - Volume33 - (Suppl.1)

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2018RBCP0065

RESUMO

Reconstruções de escalpo podem ser desafiadoras em casos com perda de grande extensão tecidual. São várias as opções cirúrgicas e elas devem ser empregadas de acordo com a complexidade do defeito. O presente artigo relata um caso de ampla perda tecidual de couro cabeludo, com exposição óssea, em que foi proposta a reconstrução com retalho anterolateral da coxa microcirúrgico. O procedimento ocorreu sem intercorrências e o paciente teve excelente recuperação pós-operatória. O retalho utilizado é muito versátil, possui um pedículo vascular muito seguro e pode recobrir extensas lesões, sendo uma ótima opção para reconstruções complexas de cabeça e pescoço.

Palavras-chave: Retalhos cirúrgicos; Retalho perfurante; Microcirurgia.


INTRODUÇÃO

A reconstrução do escalpo pode ser muito desafiadora, principalmente em casos onde há grande área a ser recoberta ou há exposição da calota craniana. Os defeitos podem ser causados por ressecções oncológicas, trauma, queimaduras, tratamento de feridas crônicas e até mesmo tratamento estético de alopecia. No presente artigo relatamos o caso de um paciente com queimadura elétrica do escalpo e importante perda tecidual, que foi submetido a uma reconstrução com o uso de retalho livre anterolateral da coxa e apresentamos uma revisão acerca do tema.


OBJETIVO

Relatar um caso de reconstrução de escalpo realizado no Serviço de Cirurgia Plástica e Microcirurgia da Irmandade de Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.


MÉTODOS

Foram realizados revisão do prontuário e dos registros fotográficos do caso relatado e revisão bibliográfica baseada no Portal Capes e PubMed sobre reconstrução de escalpo.


RESULTADOS

J.V.S.C., 49 anos, masculino, metalúrgico. Sofreu queimadura elétrica em escalpo há um ano, passando por internação na UTI e ficando com sequelas neurológicas leves, como desequilíbrio, dificuldade de marcha e limitação funcional de membro superior direito. Chegou ao ambulatório do Serviço de Cirurgia Plástica da Santa Casa de Porto Alegre com um defeito de cerca de 200cm2 no escalpo, com exposição óssea (Figura 1).


Figura 1. Lesão de escalpo pós-queimadura elétrica.



Foi realizada uma tentativa de reconstrução com perfurações da tábua óssea externa, que evoluiu com infecção local e perda da viabilidade óssea (Figura 2). Foi decidido pela ressecção da calota craniana e realização da reconstrução com um retalho anterolateral da coxa microcirúrgico. Primeiramente, houve a ressecção óssea e exposição da dura-máter.


Figura 2. Após perfurações cranianas.



A área doadora foi desenhada na coxa esquerda para um retalho subfascial baseado nos ramos perfurantes do sistema femoral circunflexo lateral. O defeito foi recoberto com enxerto de pele parcial da coxa contralateral. O retalho foi levado para o leito receptor e a anastomose microcirúrgica foi realizada com a artéria e veia temporais superficiais à esquerda.

O procedimento ocorreu sem intercorrências e o paciente obteve uma ótima recuperação pós-operatória (Figura 3). O retalho não sofreu áreas de isquemia e ofereceu uma adequada proteção ao encéfalo. O paciente optou por não realizar reconstrução da calota craniana e segue em acompanhamento ambulatorial.


Figura 3. Aspecto no 7º PO após reconstrução com retalho microcirúrgico.



DISCUSSÃO

Há inúmeras técnicas para reconstrução do couro cabeludo. Enxerto de pele com espessura parcial é uma possibilidade caso alopecia não seja uma preocupação do paciente, a área não tenha sido submetida à radioterapia e o pericrânio esteja preservado1.

Quando não é possível enxertar por algum desses fatores, retalhos locais são o método reconstrutivo preferido com a técnica dependendo da área a ser coberta. Tratando-se de uma lesão extensa de couro cabeludo, quando não há possibilidade de reconstrução de retalhos locais, sempre é necessário avaliar o paciente como um todo para definir a possibilidade de reconstrução com retalho livre (status funcional, comorbidades, doença vascular periférica).

Definida a conduta, os principais retalhos microcirúrgicos utilizados para reconstrução de escalpo são o de músculo latíssimo do dorso e o anterolateral da coxa2. Este último foi descrito primeiramente por Song et al., em 1984, baseado nas perfurantes da artéria circunflexa femoral lateral.

Trata-se de um retalho muito versátil, podendo ser usado como um retalho pediculado ou microcirúrgico, suprafascial ou subfascial, que se localiza no terço médio da coxa, anterior e lateral ao músculo reto femoral e vasto lateral. Suas medidas podem estender-se até 20x40cm, embora costume ser usado retalhos com dimensões menores e mais seguros.

Apresenta grande versatilidade para recobrimento de lesões em cabeça e pescoço e tronco, graças a um pedículo vascular longo e calibroso. Tem como desvantagens a morbidade da área doadora e pode ter aspecto 'volumoso' pela quantidade de tecido subcutâneo3,4.


CONCLUSÃO

Lesões em escalpo devem ser tratadas de acordo com a sua complexidade, podendo optar-se por enxertos, retalhos locais ou retalhos microcirúrgicos. A reconstrução microcirúrgica com o retalho anterolateral da coxa, por possuir um pedículo vascular adequado e poder cobrir grandes áreas, é uma ótima opção em reconstruções complexas de cabeça e pescoço.


REFERÊNCIAS

1. Janus JR, Peck BW, Tombers NM, Price DL, Moore EJ. Complications after Oncologic Scalp Reconstruction: A 139-Patient Series and Treatment Algorithm. Laryngoscope. 2015;125(3):582-8. PMID: 25073781 DOI: http://dx.doi.org/10.1002/lary.24855

2. Jia-Ao Y, Hong-Jing L, Zheng-Hua J, Kai S, Zhen-Hai N. Reconstruction of a large pediatric scalp defect with skull exposure by a free anterolateral thigh flap. Plast Reconstr Surg. 2012;129(1):178e-80e. DOI: http://dx.doi.org/10.1097/PRS.0b013e3182365d8a

3. Hsieh CH, Yang CC, Kuo YR, Tsai HH, Jeng SF. Free anterolateral thigh adipofascial perforator flap. Plast Reconstr Surg. 2003;112(4):976-82. PMID: 12973212 DOI: http://dx.doi.org/10.1097/01.PRS.0000076221.25738.66

4. Ali RS, Bluebond-Langner R, Rodriguez ED, Cheng MH. The versatility of the anterolateral thigh flap. Plast Reconstr Surg. 2009;124(6 Suppl):e395-407. DOI: http://dx.doi.org/10.1097/PRS.0b013e3181bcf05c











1. Universidade de Passo Fundo, Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil
2. Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre - UFCSPA, Porto Alegre, RS, Brasil

Endereço Autor:
Felipe Bilhar Fasolin
R. Sarmento Leite, 245 - Centro Histórico
Porto Alegre, RS, Brasil. - CEP 90050-170
E-mail: felipefasolin@hotmail.com

 

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