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Artigo Original - Ano 2016 - Volume 31 - Número 1

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2016RBCP0010

RESUMO

INTRODUÇÃO: A proeminência dos pavilhões auriculares é a forma mais comum de deformidade desta estrutura, afetando em torno de 5% da população. A maioria dos trabalhos acerca da cirurgia de otoplastia apresenta avaliações subjetivas, não permitindo apreciar acuradamente os resultados no pós-operatório, bem como dificultando a comparação entre técnicas. Propõe-se o desenvolvimento e aplicação de protocolo específico para avaliação dos resultados.
MÉTODO: Avaliação prospectiva pelo período de um ano de pacientes submetidos à otoplastia bilateral utilizando técnica baseada em modelagem cartilaginosa com suturas, utilizando medidas da distância hélice-mastoide em pontos padronizados.
RESULTADOS: Foram operados 23 pacientes com idade média de 17,8 anos. A incidência de reoperação foi de 21,7% dos pacientes ou 10,7% das orelhas. Houve perda de cerca de 45% da correção obtida no ponto superior e 35% nos pontos médio e inferior nos pacientes não reoperados.
CONCLUSÕES: O protocolo foi de fácil utilização e permitiu a avaliação objetiva tanto da deformidade no pré-operatório quanto dos resultados cirúrgicos. A técnica utilizada produziu resultados considerados adequados e comparáveis aos da literatura.

Palavras-chave: Cartilagem de orelha; Orelha; Orelha externa; Procedimentos cirúrgicos reconstrutivos.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Prominence is the most common deformity of the ear, affecting about 5% of the population. Most reports on otoplasty describe subjective evaluations, and do not provide accurate postoperative assessment or a comparison between techniques. We propose the development and implementation of a specific protocol to evaluate results.
METHOD: A prospective evaluation for a period of one year in patients who underwent bilateral otoplasty was performed, using a technique based on modeling of the cartilage with sutures, and helix-to-mastoid distance measurements at standardized points.
RESULTS: A total of 23 patients with an average age of 17.8 years underwent surgery. Reoperation was performed in 21.7% of the patients or 10.7% of the ears. Nearly 45% of the correction obtained at the upper point and 35% at the middle and lower points were lost in patients who did not undergo reoperation.
CONCLUSIONS: The protocol was easily used and allowed objective evaluation of the preoperative deformity and surgical results. This technique produced results considered adequate and comparable to the literature.

Keywords: Ear cartilage; Ear; External ear; Reconstructive surgical procedures.


INTRODUÇÃO

A proeminência dos pavilhões auriculares é a forma mais comum de deformidade desta estrutura, afetando em torno de 5% da população1. Embora sem comprometimento funcional relacionado à audição, há um grande impacto psicológico associado à proeminência auricular, sendo os transtornos advindos do convívio social prejudicado uma importante queixa e principal motivação para a busca de tratamento2.

Os principais achados anatômicos que caracterizam a proeminência auricular são: 1- hipertrofia da concha; 2- formação inadequada da antélice com apagamento de seu contorno normal, podendo atingir a porção principal e seus ramos superior e inferior; 3- protrusão do lóbulo. As alterações descritas podem ser observadas de forma isolada ou combinada (mais comumente) e em graus variados3.

Embora as tentativas de reparar cirurgicamente o pavilhão auricular remontem ao século VI na Índia, a otoplastia para correção de orelhas proeminentes teve início apenas no século XIX, com a publicação do primeiro caso por Ely, em 18814. Desde então, inúmeras técnicas foram descritas, havendo pelo menos 200 variações5. Basicamente, há duas correntes de técnicas: as que preconizam incisões ou abrasões na cartilagem, como por exemplo as de Luckett6, Stenstrom7, Chongchet8 e Pitanguy et al.9, e as que preservam a cartilagem e realizam a modelagem com suturas apenas, como as preconizadas por Mustarde10, Furnas11 e Spira12.

Diversas casuísticas publicadas avaliaram os resultados pós-operatórios obtidos com diferentes técnicas. No entanto, a grande maioria dos trabalhos apresenta avaliações subjetivas baseadas apenas na observação do cirurgião ao exame físico ou na satisfação do paciente13-17, não permitindo avaliar acuradamente a simetria no pós-operatório, o grau de perda de correção (que sabidamente ocorre a longo prazo), bem como dificultando a comparação entre técnicas18,19.


OBJETIVO

Dada a dificuldade em quantificar e documentar a proeminência auricular no pré-operatório, bem como em caracterizar e descrever a evolução pós-operatória e os desfechos cirúrgicos, o presente estudo teve como objetivo desenvolver um protocolo de seguimento baseado em medidas do pavilhão auricular que permitisse avaliar de maneira objetiva os resultados da técnica de otoplastia empregada.


MÉTODO

Pacientes


Foram avaliados 23 pacientes operados no período de junho de 2012 a junho de 2013 pela equipe do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital de Clínicas da Unicamp. Foram incluídos no estudo aqueles que completaram o período proposto de seguimento de um ano e receberam alta ou que durante este período tiveram indicação de reoperação para correção de recidiva.

Procedimento cirúrgico

Todas as cirurgias foram realizadas em regime ambulatorial, sob anestesia local. Realizou-se incisão retroauricular fusiforme, com excisão do excedente calculado de pele. O tratamento da antélice foi feito por meio de suturas empregando-se os pontos descritos por Mustarde10, com fio de polipropileno 4-0. O tratamento do ângulo céfalo-conchal foi realizado utilizando pontos de sutura concho-mastoideos, segundo descrito por Furnas11, também com fio de polipropileno 4-0. A excisão parcial em fuso da cartilagem conchal foi empregada nos casos em que se observou ao exame físico e no ato operatório hipertrofia da mesma com excessiva oposição à correção e/ou obliteração do meato acústico quando realizada a simulação da correção do ângulo céfalo-conchal. Após a excisão, as bordas da cartilagem conchal foram aproximadas com sutura contínua utilizando fio de polipropileno 4-0. A síntese da pele foi realizada com sutura intradérmica de nylon 4-0. Após o procedimento, os pacientes mantiveram curativo oclusivo por 24 horas, seguindo-se o uso de faixa elástica por sete dias.

Protocolo de avaliação

Padronizou-se a avaliação do posicionamento do pavilhão auricular por meio da realização de medidas da distância entre a porção mais lateral da hélice e a superfície da região mastoide em três pontos - superior, médio e inferior - baseados em referências anatômicas, com o paciente mantendo posição neutra da cabeça com o olhar voltado para a frente.

O ponto superior corresponde ao nível da bifurcação da antélice em seus ramos superior e inferior, o médio ao nível da borda superior do meato acústico (Porion) e o inferior ao ponto mais profundo da incisura intertrágica (Figura 1). Todas as medições foram realizadas pelo autor, utilizando-se paquímetro milimetrado, posicionando a haste de profundidade perpendicularmente à superfície mastoide na altura do ponto a ser medido (Figura 2).


Figura 1. Padronização dos pontos de medida superior, médio e inferior segundo referências anatômicas.


Figura 2. Posicionamento da haste de profundidade do paquímetro, perpendicular à superfície mastoide.



As medições foram realizadas no pré-operatório, pós-operatório imediato (POI) e nos retornos com 30 dias, três meses, seis meses e um ano de pós-operatório. As reintervenções, quando indicadas por perda da correção da protrusão auricular, ocorreram após pelo menos seis meses da cirurgia primária.

Todos os pacientes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido após concordarem em participar do estudo. O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Parecer nº 15000 de 27/03/2012).

Foi utilizado para a análise estatística o programa Bioestat 5.0 (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, Tefé, Brasil). Foram utilizados nas comparações testes paramétricos, especificamente o teste t de Student para amostras pareadas e para amostras não pareadas, segundo exigido por cada comparação. Um nível α de 0,05 foi selecionado. Todos os valores de p são bilaterais.


RESULTADOS

Dos 23 pacientes operados, 14 (60,9%) eram do sexo feminino. A idade média foi de 17,8 anos (mínimo de 10 e máximo de 34 anos). Em todos os pacientes foram utilizadas as suturas de Mustarde para correção da antélice (média de 2,9 pontos por orelha) e de Furnas para a correção do ângulo céfalo-conchal (média de 2 pontos por orelha). Em 15 pacientes (65,2% do total), foi realizada a excisão parcial em fuso da cartilagem conchal.

Dentre os pacientes operados, cinco apresentaram perda de correção da proeminência em uma das orelhas, tendo sido indicada reintervenção. Assim, a incidência de perda de correção necessitando de reoperação foi de 21,7% dos pacientes ou 10,7% das orelhas operadas.

Tendo em vista que os pacientes que evoluíram com perda de correção necessitando de reoperação tiveram esta indicação aos seis meses de evolução, optou-se por analisá-los como grupo separado daqueles que tiveram evolução sem necessidade de nova cirurgia, uma vez que não foram submetidos às medidas de um ano de pós-operatório como os demais.

Não houve diferença significativa entre as orelhas nas medidas pré-operatórias em ambos os grupos (comparações intra e intergrupos). Observou-se que a cirurgia foi capaz de reduzir de maneira significativa as medidas em todos os pontos, e de maneira a produzir resultados semelhantes entre as orelhas no pós-operatório imediato (todas as comparações entre as medidas das orelhas no pós-operatório imediato não foram significativamente diferentes em ambos os grupos) (Figuras 3 e 4). O ganho médio em centímetros conseguido com a técnica empregada foi também comparável entre os grupos (Tabela 1).


Figura 3. Comparações entre as medidas pré-operatórias e do pós-operatório imediato no grupo não reoperado. * p < 0,0001 em comparação com respectivo pré-operatório. POI: pós-operatório imediato.


Figura 4. Comparações entre as medidas pré-operatórias e do pós-operatório imediato no grupo que necessitou de reoperação. * p < 0,05 em comparação com respectivo pré-operatório. POI: pós-operatório imediato.




As médias das medidas obtidas durante a evolução pós-operatória dos pacientes que não foram reoperados estão expressas nas Figuras 5 e 6. Os valores relativos aos pacientes que necessitaram de reoperação estão expostos nas Figuras 7 e 8.


Figura 5. Evolução das medidas do pavilhão auricular direito. POI: pós-operatório imediato.


Figura 6. Evolução das medidas do pavilhão auricular esquerdo. POI: pós-operatório imediato.


Figura 7. Evolução das medidas do pavilhão auricular não recidivado. POI: pósoperatório imediato.


Figura 8. Evolução das medidas do pavilhão auricular recidivado. POI: pós-operatório imediato.



Considerando-se a média global das medidas das orelhas no grupo de pacientes que não foi reoperado, observa-se que a perda da correção foi progressiva em todos os pontos ao longo da evolução pós-operatória, especialmente nos primeiros seis meses. Na comparação entre as medidas realizadas aos seis meses e após um ano de pós-operatório, ainda se observou que havia diferença significativa (Figura 9).


Figura 9. Evolução geral das orelhas no grupo que não necessitou de reintervenção. * p < 0,0001 vs. pós-operatório imediato; # p = 0,0011 vs. pósoperatório imediato; § p < 0,05 vs. medida correspondente de seis meses. POI: pós-operatório imediato; PO: pós-operatório.



Não se repetiu a mesma tendência de variações significativamente diferentes do ponto de vista estatístico entre as medidas do pós-operatório de seis meses e o pós-operatório imediato no grupo que foi reoperado, embora tenha-se observado igualmente aumento dos valores (Figuras 7 e 8).

Comparando-se a perda de correção percentual relativa ao ganho obtido com a cirurgia, observa-se que as orelhas que ao final necessitaram de reoperação já desde o primeiro mês de pós-operatório apresentavam piores resultados, especialmente com relação aos pontos superior e médio. Por outro lado, observou-se uma perda mais tardia da correção no ponto mais inferior, entre três e seis meses de pós-operatório. As orelhas não reoperadas evoluíram de modo semelhante ao observado no grupo não submetido a reoperação (Figuras 10 a 12).


Figura 10. Evolução da perda percentual da correção obtida no ponto superior. PO: pós-operatório.


Figura 11. Evolução da perda percentual da correção obtida no ponto médio. PO: pós-operatório.


Figura 12. Evolução da perda percentual da correção obtida no ponto inferior. PO: pós-operatório.



A estratificação da perda de correção observada nas orelhas do grupo não reoperado mostra que a maioria dos pacientes apresentou perdas da ordem de 25% a 50% do ganho obtido com o procedimento nos pontos superior e médio e entre 0 e 25% no ponto inferior (Figura 13).


Figura 13. Estratificação do grau de perda de correção após um ano no grupo não reoperado.



A avaliação da simetria entre as orelhas no pósoperatório mostra que no grupo não reoperado houve resultado favorável, com a maioria dos pacientes apresentando diferenças de até 3 mm após seis meses e um ano de evolução. Em contraste, no grupo reoperado observou-se que todos os pacientes apresentaram diferenças de pelo menos 3 mm no ponto superior após seis meses de evolução (Tabela 2).




DISCUSSÃO

Apesar de seus mais de dois séculos de história, a otoplastia para correção de orelhas proeminentes ainda é motivo de controvérsia, haja vista o grande número de variações técnicas e ampla variabilidade de resultados e índices de complicações20. Embora haja algum consenso em torno dos objetivos gerais a serem atingidos com a correção cirúrgica20,21, a maioria dos artigos apresenta métodos de avaliação subjetivos e pouco consistentes para promover a comparação entre a forma e posição do pavilhão auricular individualmente em diferentes períodos, bem como para permitir a comparação entre diferentes técnicas22.

O protocolo de avaliação proposto surgiu da necessidade de avaliar de maneira mais objetiva tanto a deformidade no pré-operatório quanto a evolução pós-cirúrgica. A realização de medidas da distância entre a hélice e a região mastoide utilizando pontos em alturas definidas por estruturas anatômicas baseou-se no estudo de Messner & Crysdale23, com modificações nas referências anatômicas para medida dos pontos superior e inferior, com o intuito de facilitar sua aferição.

O emprego do método mostrou-se simples e prático, levando apenas alguns minutos para a obtenção das medidas e dependendo apenas da utilização de um paquímetro. Assim, sua utilização é mais factível na prática clínica diária que outras metodologias propostas que, embora talvez de maior precisão, são mais dispendiosas de tempo e recursos24,25.

A técnica cirúrgica empregada foi capaz de produzir as alterações anatômicas desejadas, reduzindo as distâncias hélice-mastoide em todos os pontos. O efeito pôde ser apreciado tanto por meio do exame clínico quanto das medidas, que apresentaram redução significativa no pós-operatório imediato. O ganho observado foi comparável ao obtido em estudos que utilizaram técnicas baseadas em suturas cartilaginosas, como os de Adamson et al.26 e Messner & Crysdale23, que obtiveram ganhos de 10,3 mm e 10,1 mm no ponto que corresponderia ao ponto superior avaliado neste estudo. Schlegel-Wagner et al.27 e Foda28 obtiveram maiores reduções na mesma altura do pavilhão auricular, respectivamente de 14 mm e 17 mm.

No entanto, foram utilizadas abordagens diferentes, como a raspagem anterior da cartilagem da antélice27 e a hipercorreção deliberada28. No ponto médio foi obtida redução de 1 cm, comparável também aos estudos de Messner & Crysdale (9,9 mm) e Foda (10,5 mm). O único trabalho em que a medição foi comparável à do ponto inferior foi o de Messner & Crysdale, com correção de 5,8 mm, inferior à obtida no presente estudo. Os demais protocolos27,28 não avaliaram pontos de medida compatíveis com o ponto inferior do presente estudo, não sendo possível realizar comparações.

Durante o período pós-operatório, houve perda progressiva da correção obtida em todos os pontos de medição. A perda foi significativa até o final do período de avaliação de um ano no grupo não reoperado. Confrontando os dados obtidos com o exposto nos estudos realizados com metodologia semelhante, observa-se que houve perda semelhante aos 6 meses de pós-operatório ao mostrado por Foda (33,9% de perda no ponto superior e 26,9% no ponto médio).

Os demais estudos mostram resultados em tempos diferentes de avaliação. Adamson et al.26 reportam medidas com intervalo médio de 6 meses de pós-operatório com perda de 45% da correção no que equivaleria ao ponto superior, porém o tempo de seguimento variou de um a 24 meses, o que não reflete a mesma avaliação por nós realizada. Após seguimento médio de 3,7 anos, Messner & Crysdale23 reportam perdas de correção de 58% no ponto superior e 45% no médio, valores pouco superiores aos obtidos na presente avaliação. Schlegel-Wagner et al.27 mostram perdas menores, da ordem de 23% após em média 6,25 anos de pós-operatório no que equivale ao ponto superior.

Fica claro a partir dos dados apresentados que há perda da correção obtida ao longo do tempo utilizando-se técnicas de modelagem cartilaginosa por suturas. Salienta-se que, na comparação com os estudos apresentados, embora haja similaridade no padrão de perda de correção há diferença com relação à faixa etária da população estudada. Nos quatro estudos apontados23,26-28, a média de idade dos pacientes avaliados foi de até 11 anos, sendo que a maior parte das amostras foi de crianças com idade ao redor de 6 a 8 anos de idade. Nota-se, assim, que o comportamento evolutivo das orelhas operadas é semelhante em crianças e adultos jovens.

Comparando-se os padrões de evolução da perda de correção entre as orelhas reoperadas e as não reoperadas (Figuras 10 a 12), nota-se uma perda precoce do resultado, já após um mês. Esta falência precoce do tratamento sugere falha dos pontos de Mustarde e/ou Furnas em manter o posicionamento adequado da cartilagem. Um fator que poderia, pelo menos em parte, explicar tal ocorrência seria a maior média de idade dos pacientes que evoluíram com necessidade de reoperação (24,2 anos no grupo reoperado vs. 16 anos no grupo não reoperado).

Sabe-se que a cartilagem perde progressivamente sua maleabilidade com o envelhecimento, tornando-a mais resistente ao reposicionamento. Não se pode, a partir do pequeno número de pacientes que evoluíram com necessidade de reoperação, traçar conclusões definitivas, sendo necessárias análises com maior número de casos para avaliar corretamente a influência da variável idade na perda de correção.

O resultado final das cirurgias no grupo não reoperado pode ser considerado satisfatório se comparado com critérios estabelecidos. O conjunto de diretrizes de objetivos a serem buscados por meio da otoplastia mais citado na literatura é o de McDowell21, que estabelece intervalos considerados ideais de distância entre a borda externa da hélice e a região mastoide. As distâncias preconizadas são de 10-12 mm no ponto superior, 16-18 mm no terço médio e 20-22 mm no terço inferior. Adamson et al.29 consideram que 2 cm seria o limite da distância normal entre a região mastoide e a "porção superior da hélice", não havendo no estudo referência anatômica mais precisa para esta localização.

Confrontando os resultados de medidas do grupo não reoperado após intervalo de um ano (Figura 9), observa-se que apenas o ponto superior difere do preconizado por McDowell, o que provavelmente deriva do fato de as medidas serem realizadas utilizando diferentes referências anatômicas. Se considerarmos a medida preconizada por Adamson et al., os resultados estariam ainda dentro da normalidade. As medidas finais das orelhas reoperadas (Figura 8) têm os valores dos pontos superior e médio acima de qualquer dos critérios preconizados. É interessante ressaltar que McDowell não explicita em seu trabalho a fonte de onde foram retiradas as medidas preconizadas e Adamson et al. utilizaram uma população cuja composição étnica não foi adequadamente explicitada.

Tendo em vista a dificuldade em caracterizar e diferenciar precisamente por meio de medidas a orelha proeminente da orelha considerada normal30, a eventual padronização de objetivos de medidas a serem alcançados pela cirurgia deveria basear-se em análise da população local. Aponta-se, assim, a necessidade de realização de estudos brasileiros sobre a antropometria auricular que possam oferecer padrões de comparação mais adequados.

Considerando-se a necessidade de aprimorar a técnica utilizada objetivando melhor estabilização dos resultados e redução da incidência de assimetrias e perdas acentuadas de correção da protrusão (especialmente na porção mais superior da orelha), sugere-se o emprego de rotina da raspagem anterior da cartilagem da antélice. A hipercorreção, preconizada por alguns autores23,28 não nos parece a melhor alternativa pois incorre-se no risco de promover excesso de correção permanente em alguns pacientes, que evoluem com menores perdas (Figura 13). Há indícios de que a associação da modelagem com suturas e a raspagem anterior da cartilagem possam atuar de maneira sinérgica reduzindo a perda de correção na evolução de longo prazo27,31, atuando na topografia das maiores perdas observadas em nosso estudo.


CONCLUSÕES

A técnica de otoplastia empregada apresenta resultados favoráveis, com evolução comparável ao apresentado na literatura. Sugere-se, no entanto, a introdução da raspagem anterior da cartilagem na topografia da antélice como procedimento associado para tentar reduzir a perda de correção observada.

O protocolo de avaliação instituído foi de fácil utilização e permitiu caracterizar objetivamente a deformidade no pré-operatório, bem como avaliar a evolução pós-operatória, demonstrando o comportamento das orelhas operadas em termos de posicionamento. O método de avaliação pode ser útil para permitir futuras comparações entre técnicas.



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1. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, São Paulo, SP, Brasil
2. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil

Autor correspondente:
Davi Reis Calderoni
Rua Tessália Vieira de Camargo, 126, Cidade Universitária "Zeferino Vaz"
Campinas, SP, Brasil CEP 13083-887
E-mail: davicalderoni@yahoo.com.br

Artigo submetido: 30/7/2014.
Artigo aceito: 17/11/2014.

Instituição: Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.

 

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