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Relato de Caso - Ano 2014 - Volume 29 - Número 2

http://www.dx.doi.org/10.5935/2177-1235.2014RBCP0034

RESUMO

INTRODUÇÃO: A doença de Mondor é descrita como um processo inflamatório raro, benigno e autolimitado que acomete os vasos tóraco-abdominais. São vários os fatores predisponentes e entre eles a cirurgia de mama é um dos mais frequentes.
RELADO DE CASO: O objetivo do trabalho é descrever um caso típico e tecer considerações quanto ao tratamento, após breve revisão bibliográfica, para que sejam evitados procedimentos desnecessários.

Palavras-chave: Doença de Mondor; Tromboflebite Superficial; Mamaplastia Estética.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Mondor's disease is a rare, benign, and self-limiting inflammatory condition that affects the thoracoabdominal vasculature. Among the several predisposing factors of this disease, breast surgery is one of the most frequent.
CASE REPORT: The aim of this work was to describe a typical case of Mondor's disease and to discuss treatment options based on a succinct literature review, so that unnecessary procedures can be avoided in the future.

Keywords: Mondor's Disease; Superficial Thrombophlebitis; Aesthetic Mammoplasty.


INTRODUÇÃO

A doença de Mondor é descrita como um processo inflamatório raro, benigno e autolimitado que acomete os vasos tóraco-abdominais. São vários os fatores predisponentes e entre eles a cirurgia de mama. A descrição da doença foi feita pelo cirurgião francês Henri Mondor, em 1939, e passou a ser conhecida como doença ou síndrome de Mondor, mas permanece sem esclarecimento a sua fisiopatologia. Importante que seja diagnosticada nos pós-operatório para acompanhamento e tranquilização dos pacientes e tratamento adequado.


RELATO DE CASO

Paciente feminino, 54 anos, normolínea, com índice de massa corporal de 24,4. Foi submetida à mastopexia e aumento de mama com prótese texturizada de 200ml, em outubro de 2008.

Os exames pré-operatórios eram normais e incluiu-se hemograma, coagulograma, EAS, ECG com risco cirúrgico, radiografia de tórax. À mamografia paciente apresentava, bilateralmente, mamas com classificação radiológica 2 BI-RADS®), com achados benignos. Foi realizada ainda ultrassonografia das mamas que evidenciaram mamas normais, com moderada substituição adiposa.

Na história de saúde prévia constavam duas cesarianas e cirurgia de hemorróidas bem sucedidas. E deve ser ainda realçado o hábito de tabagismo, em média, de 20 cigarros/dia.

Com cinco semanas de pós-operatório, apresentou dor em parede anterior direita de abdome, em linha para-mediana direita, abaixo de cicatrize da cirurgia. Alguns dias após, apresentou cordão fibroso endurecido e leve hiperemia de pele. A dor e o cordão eram mais aparentes quando a paciente fazia a elevação do membro superior homolateral e/ou da mama homolateral. (Figura 1).


Figura1. Cordão fibroso veia epigástrica superior em pós-operatório de Mastopexia e aumento mamário.



A paciente apresentou melhora, com remissão completa do quadro clínico, em três semanas, com uso oral de anti-inflamatório não-esteróide, nimesulida, 200mg/dia. E como medidas gerais, repouso e compressa quente e úmida local. Paciente foi ainda estimulada a abandonar tabagismo.


DISCUSSÃO

A primeira descrição do comprometimento dos vasos superficiais de tórax e abdome, em 1869, foi realizada por Fagge1-3. A descrição mais detalhada foi feita pelo cirurgião francês Henri Mondor, em 1939, e a patologia passou a ser conhecida como doença ou síndrome de Mondor. A fisiopatologia da doença não está bem definida, porém, hodiernamente é reconhecida como trombose de vasos superficiais de tórax e abdome, sendo os mais frequentes veia tóraco-epigástrica, veia torácica lateral e veia epigástrica superior4,5.

As causas da doença são: traumas1,2,4, cirurgias1,2, câncer de mama2, uso de roupas ou faixas apertadas1,2, atividade esportivas excessivas1, sexo vigoroso4, biópsia ou ressecção de linfonodos axilares ou sentinela3, hepatite C2, porém todas elas relacionadas, em algum grau, à tríade de Virchow, lesão do vaso, estase sanguínea ou estado de hipercoagulabilidade.

Na doença de Mondor, como descrita pelo autor, apesar de ocorrer comprometimento venoso, poderá ocorrer comprometimento linfático e foram apresentados alguns marcadores imunohistoquímicos, como CD 31 e D240, para a diferenciação6,7, porém com pouca aplicação clínica, pois o tratamento sintomático permanece inalterado para ambos os casos.

A doença de Mondor foi ainda descrita em outras regiões como pênis7, pescoço8,9, membros superiores10, região inguinal10 e são poucos os relatos em pós-operatórios de cirurgia estética11.

Os exames complementares para diagnóstico de doença de Mondor são a mamografia e a ultrassonografia. A mamografia tem parcos achados para o diagnóstico e, na maioria das vezes, se limita a relatar a presença de densidade tubular dilatada e superficial ou não apresentar nenhuma alteração9; Porém, é de relevante importância para diagnóstico do câncer de mama subjacente e causador da doença. A frequência relatada varia de 1% até 12,7%1,4. A ultrassonografia poderá se apresentar normal ou como imagem tubular hipoecóica superficial e, se associada com Doppler, evidenciar ausência de fluxo sanguíneo9. Não são necessários exames laboratoriais4.

O exame clínico é essencial e o sintoma mais comum é a dor1, seguida de um ou mais cordões fibrosos superficiais, que pioram com o movimento da região afetada que se encontra hiperemiada2,4,5.

Os sinais inflamatórios duram de 2 semanas a 6 meses e a dor pode persistir de 2 a 6 semanas1,4,9.

O tratamento da doença de Mondor é o sintomático, sendo que o uso de anti-inflamatórios não-esteróides é a única medida a ser instituída1-11. Existem relatos do uso de corticosteróides, antibióticos, vacinas, anticoagulantes2 e até manobras de distração manual3, porém sem evidência de função terapêutica.


CONCLUSÃO

Conclui-se que o reconhecimento da patologia de Mondor é importante, apesar de rara, é autolimitada e muito infrequentemente torna necessário qualquer procedimento invasivo para sua plena resolução, que não a conduta conservadora. Portanto serve de lembrança para tranquilizar cirurgião e paciente quanto à evolução favorável da maioria dos casos.


REFERÊNCIAS

1. Bauerfeind I, Himsl I, Ruehl I. Mondor's disease afther bilateral axillary node biopsy. Arch Gynecol Obstet. 2006;27(6)3:374-7.

2. Santos JA, Santos KG, Nazário AC. Doença de Mondor. R Bras Mastol. 2008;18(4):179-81.

3. Salmon RJ, Berry MG, Hamelin J P. A novel treatment for postoperative Mondor's disease: manual distraction. Breast J. 2009;15(4):381-84.

4. Schwartz R A, Trovato M J. Mondor Disease. Disponível em HTTP://emedicine.medscape.com/article/1087099-overview. Acesso em 15/12/2010.

5. TIjerina AN, Saenz RA. Mondor's syndrome: a clinical finding on subfascial breast augmentation. Aesthetic Plast Surg. 2010;34(4):531-3.

6. IChinose A, Fukunaga A, Terashi H, Tanemura A, Nakajima T, Fukasawa Y A, et al. Objective recognition of vascular lesions in Mondor's disease by immunohistochemistry. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2008;22(2):168-73.

7. Garrido HA, Muñoz CS, Fernandez L P, Ríos AA, Romero AM. Immunochemical clues to the diagnosis of Mondor's Disease of the penis. Clic Exp Dermatol. 2009;34(8):e663-5.

8. Mera K, Terasaki K, Kawasaki T, Kanekura T. Mondor Disease on the neck. J Dermatol. 2009;36(3):179-80.

9. Faucz RA, Hidalgo R T, Faucz R S. Doença de Mondor: achados mamográficos e ultrasonográficos. Radiol Bras. 2005;38(2):153-155.

10. Losannoff MD, Basson MD, Salwen WA, Sochaki P. Mondor's Disease Mimicking a spigelian hernia. Hernia. 2008;12(4):425-7.

11. Bertolin SM, Martínez RG, Pastor MV, Mateo MD, Velayos J A. Mondor's disease and aesthetic breast surgery: report of case secondary to mastopexy with augmentation. Aesthetic Plast Surg. 1995;19(3):251-2.










Especialista pela SBCP - Professor da Disciplina de Clínica Cirúrgica I da Faculdade de Medicina de Barbacena

Instituição: Trabalho realizado em clínica particular do autor.

Autor correspondente:
João Márcio Prazeres dos Santos
Rua Catarina de Castro 75, Bairro Jardim Glória
Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. CEP: 36036-060
E_mail: jmprazsantos@hotmail.com

Artigo submetido: 21/2/2011
Artigo aceito: 28/2/2011

 

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