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Editorial - Ano 2013 - Volume 28 - Número 1

A heterogeneidade na distribuição geográfica de profissionais médicos no Brasil é notória. Independentemente da atuação em serviços públicos ou em instituições privadas, a alta concentração nas grandes capitais se opõe à escassez de médicos em locais mais afastados.

É fato que a população necessita de atenção. Tratando-se de saúde pública, o governo tem procurado reverter a situação com estímulo financeiro a profissionais, para que atuem em locais distantes, e até vem adotando medidas controversas, como a facilitação para a vinda de médicos estrangeiros. Em termos de saúde complementar e saúde privada, a perspectiva de menor concentração de profissionais em determinada região melhora a possibilidade de rendimento financeiro individual do profissional.

O ganho de capital, exclusivamente, não parece ser o fator determinante. Como mencionado, há estímulo financeiro para médicos atuarem em áreas distantes dos grandes centros, com salários comparativamente maiores, porém essa estratégia não resulta no efeito esperado.

Portanto, devem existir outras razões para a pequena migração de profissionais habilitados para o interior do País. Imaginemos a situação de um cirurgião plástico recém-formado, que teve a oportunidade de treinamento adequado durante sua residência e que encontra ao seu término um mercado de trabalho saturado nos grandes centros. O que o faz permanecer nessa situação e, muitas vezes, se submeter a piores condições de trabalho? A falta de infraestrutura fora dos grandes centros pode ser uma das explicações para o menor interesse na movimentação de profissionais, que preferem a pletora dos grandes centros a condições inadequadas de trabalho no interior. Principalmente para especialistas, a impossibilidade de exercerem a medicina com uso de tecnologia avançada pode ser um fator relevante. Em contrapartida, o desenvolvimento de modernos centros hospitalares públicos ou privados afastados das capitais não obteve o impacto esperado e, mesmo nesses centros, a busca por profissionais é trabalho árduo, havendo ainda desproporção entre o número de vagas disponíveis e de candidatos suficientes. Mesmo associando-se a modernidade ao estímulo financeiro, a busca de posições por profissionais nesses centros está aquém do esperado.

O maior acesso à informação existente nas grandes cidades, onde ocorre a maior parte das atividades científico-culturais, pode contribuir para a manutenção do profissional nos grandes centros. Essa justificativa, porém, tem se tornado enfraquecida com a maior difusão do conhecimento por meio de meios eletrônicos, como transmissões simultâneas, atividades científicas interativas e acesso aberto aos periódicos. A difusão do conhecimento se tornou mais acessível, ampla e com menores custos.

Portanto, melhor qualidade de vida, melhores salários e condições adequadas de trabalho não têm sido suficientes para estimular o profissional a abandonar a vida ativa e estressada, porém socialmente interessante dos grandes centros.

Desse modo, as atividades científicas presenciais perpetuam-se e, por vezes, se tornam eventos tanto de caráter científico como social. Possivelmente esse seja um ponto relevante, a ser levado em consideração. O contato social entre os profissionais é um fator muito importante na vida do médico, tanto por possibilitar a troca de informações como para ampliação da rede de contatos. É possível que o profissional que trabalhe fora dos grandes centros sinta-se distante do contato corpo a corpo, imaginando que com isso possa se tornar "esquecido" por seus pares.

A admiração e o respeito que temos pelos grandes nomes de nossa especialidade não guardam, entretanto, um paralelo absoluto com a condição geográfica do profissional. Tanto no Brasil como no mundo existem inúmeros profissionais altamente gabaritados, conhecidos e respeitados cientificamente e que exercem suas atividades em suas clínicas ou hospitais localizados em pequenas cidades. Há, porém, um diferencial nesses profissionais. Eles publicam! Ao publicar, perpetuam suas ideias, consolidam o conhecimento, se aproximam dos grandes centros mundiais, extinguindo as distâncias... E vivem bem.


Dov Charles Goldenberg
Coeditor da RBCP

 

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