Original Article - Year 2026 - Volume 41Issue 1
Complicações no tratamento cirúrgico das fraturas de côndilo mandibular - Um estudo prospectivo
Complications in the Surgical Treatment of Mandibular Condyle Fractures - A Prospective Study
RESUMO
Introdução Fraturas mandibulares estão entre as lesões mais comuns na região craniofacial, com relato de acometimento da região condilar em 19 a 52% dos casos. Embora o tratamento não cirúrgico ainda seja amplamente utilizado, o acompanhamento no longo prazo tem demonstrado controle subótimo da disfunção da articulação temporomandibular e das complicações relacionadas, incluindo dor crônica, anquilose, artrite condilar, má oclusão, hipomobilidade e assimetria facial. Apesar da crescente adoção do tratamento cirúrgico nos últimos anos, poucos estudos contemporâneos avaliaram suas complicações em fraturas condilares.
Materiais e Métodos Este estudo prospectivo foi conduzido entre julho de 2022 e dezembro de 2024 e incluiu pacientes adultos (≥ 18 anos) com fraturas do côndilo mandibular que foram submetidos à tomografia computadorizada (TC), concordaram com o tratamento proposto pela equipe clínica e foram acompanhados durante todo o período.
Resultados O estudo incluiu 33 pacientes, 23 (69,70%) dos quais foram submetidos ao tratamento cirúrgico, e 10 (30,30%), ao tratamento não cirúrgico. A incidência geral de complicações foi de 25,92%, sendo a paralisia facial periférica e a sialocele as mais frequentes (11,11% cada), seguidas por disfunção da articulação temporomandibular (3,70%).
Conclusão Embora a indicação para o tratamento cirúrgico de fraturas condilares tenha aumentado, a conscientização e a avaliação cuidadosa de suas complicações continuam sendo essenciais.
Palavras-chave: côndilo mandibular; fraturas maxilomandibulares; complicações pós-operatórias
ABSTRACT
Introduction Mandibular fractures are among the most common injuries in the craniofacial region, with involvement of the condylar region reported in 19 to 52% of the cases. Although non-surgical management remains widely used, long-term followup has demonstrated suboptimal control of temporomandibular joint dysfunction and related complications, including chronic pain, ankylosis, condylar arthritis, malocclusion, hypomobility, and facial asymmetry. Although the adoption of the surgical treatment has been increasing in recent years, few contemporary studies have evaluated its complications in condylar fractures.
Materials and Methods The current prospective study was conducted between July 2022 and December 2024, and it included adult patients (≥ 18 years) with mandibular condyle fractures who underwent computed tomography (CT) scans, agreed to the treatment proposed by the clinical team, and were followed up throughout the study period.
Results The study included 33 patients, 23 (69.70%) of whom underwent surgical treatment, and 10 (30.30%), non-surgical management. The overall incidence of complications was of 25.92%, with peripheral facial paralysis and sialocele being the most frequent (11.11% each), followed by temporomandibular joint dysfunction (3.70%).
Conclusion Although the indication for surgical treatment of condylar fractures has been increasing, awareness and careful evaluation of its complications remain essential.
Keywords: mandibular condyle; maxillomandibular fractures; postoperative complications
Introdução
As fraturas mandibulares estão entre as mais comuns da região craniofacial. O acometimento da região condilar ocorre em 19% a 52% dessas fraturas, que estão associadas a alterações funcionais como má oclusão, trismo, dor crônica, disfunção da articulação temporomandibular (DTM, com redução da abertura oral) e assimetria facial.1,2
O tratamento pode ser não cirúrgico, com bloqueio maxilomandibular, dieta líquida restrita, fisioterapia precoce e controle ortodôntico com elásticos, e cirúrgico, que envolve a redução aberta com fixação interna com miniplacas e parafusos.3,4
Historicamente, o tratamento não cirúrgico foi muito utilizado devido às complicações associadas à cirurgia (cicatrizes não estéticas, paralisia facial periférica, infecção, fístula salivar, sialocele), mas o acompanhamento dos pacientes no longo prazo demonstrou controle subótimo da DTM, dor crônica, da anquilose da articulação temporomandibular, da artrite condilar, da má oclusão, da hipomobilidade e da assimetria facial, o que tornou o tratamento cirúrgico mais largamente utilizado nos últimos anos.1,5–9
Apesar de existirem estudos que avaliam os desfechos das opções conservadoras e cirúrgica, poucos trabalhos avaliam a incidência das complicações relacionadas ao tratamento cirúrgico.3,10–14
Objetivo
O objetivo deste estudo foi avaliar o perfil epidemiológico e a incidência de complicações dos pacientes com fratura condilar submetidos ao tratamento cirúrgico em um hospital geral terciário.
Materiais e Métodos
Foi realizado um estudo prospectivo, de julho de 2022 a dezembro de 2024, com pacientes com fraturas que envolviam o côndilo mandibular atendidos pela equipe de cirurgia craniomaxilofacial do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia.
Os critérios de inclusão foram idade ≥ 18 anos, realização de tomografia computadorizada com reconstrução tridimensional (3D) e concordância do paciente com o tratamento proposto pela equipe médica (fosse cirúrgico ou não). Foram excluídos pacientes com idade < 18 anos e os pacientes que, ao final de estudo, não apresentavam tempo mínimo de 6 meses de seguimento ambulatorial após o trauma. Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa institucional sob o protocolo CAAE 57095822.0.0000.5152.
Resultados
Durante o período analisado, foram acompanhados 33 pacientes com fraturas que envolviam o côndilo mandibular que preencheram os critérios de inclusão. A idade dos pacientes, a maioria deles do sexo masculino, variou entre 18 e 87 (média: 43,70) anos (►Tabela 1 ). Os mecanismos de trauma mais comuns foram acidentes com veículos automotores, seguidos das quedas e de agressão física (►Tabela 1 ). As fraturas unilaterais ocorreram em 87,88% dos pacientes, ao passo que 12,12% apresentaram fratura condilar bilateral (►Tabela 2 ).
| Dados | Número de casos | Percentual |
|---|---|---|
| Sexo | ||
| Masculino | 25 | 75,75% |
| Feminino | 8 | 24,24% |
| Total | 33 | |
| Mecanismo do trauma | ||
| Acidente com veículos | 14 | 42,40% |
| Queda | 10 | 30,30% |
| Agressão | 9 | 27,26% |
| Total | 33 |
| Tipo de fratura | Número de casos | Percentual |
|---|---|---|
| Unilateral | 29 | 87,88% |
| Bilateral | 4 | 12,12% |
| Total | 33 |
A opção pelo tratamento cirúrgico levou em consideração desvios acima de 45° entre os fragmentos e a perda de altura do ramo mandibular superior a 2 mm, confirmados por tomografia computadorizada com reconstrução 3D com cortes finos, e foi a abordagem escolhida em 69,70% dos pacientes (►Tabela 3 ). A via de acesso mais utilizada foi a retromandibular transparotídea, seguida do acesso pré-auricular para fraturas condilares altas (►Tabela 4 ; ►Figs. 1 –2 ).
| Tipo de tratamento | Número de casos | Percentual |
|---|---|---|
| Cirúrgico | 23 | 69,70% |
| Não cirúrgico | 10 | 30,30% |
| Total | 33 |
| Vias de acesso | Número de casos | Percentual |
|---|---|---|
| Retromandibular | 18 | 66,67% |
| Pré-auricular | 9 | 33,34% |
| Total | 27 |


Foram evidenciadas 7 complicações: 3 casos de paralisia facial periférica (2 com resolução completa em 3 meses, e 1 com paralisia definitiva do ramo frontal unilateral), 3 casos de sialocele (1 com melhora após drenagem e curativo compressivo, e 2 casos com melhora após 1 sessão de toxina botulínica) e 1 caso de DTM com redução de abertura oral (►Figs. 3 –4 ). A incidência total de complicações foi de 25,92%. Sialocele e paralisia facial periférica ocorreram em 11,11% dos casos. A incidência de DTM foi de 3,70% (►Tabela 5 ).
| Complicações | Número de casos | Percentual |
|---|---|---|
| Paralisia facial periférica | 3 | 11,11% |
| Sialocele | 3 | 11,11% |
| Disfunção da articulação temporomandibular | 1 | 3,70% |
| Total | 7 | 25,92% |
Discussão
Este trabalho avaliou a incidência de complicações dos pacientes com fratura condilar submetidos ao tratamento cirúrgico. Em conformidade com o nosso estudo, outros autores2,10,12,15 evidenciaram a predominância de fraturas condilares em pacientes do sexo masculino e em idade produtiva.
Acidentes com veículos automotores, seguidos das quedas e da violência interpessoal, foram os principais mecanismos de trauma em 3 estudos recentes2,16,17 que corroboram nossos schados, embora o estudo realizado em 2023 por Tatsumi et al.17 tenha evidenciado as quedas como o mecanismo mais frequente. A predominância de fraturas unilaterais em nosso hospital, com taxa de 87,88%, também foi observada em outros estudos,2,10,13,15 que relataram taxas de até 89,70%.
A redução aberta e fixação interna foi realizada na maioria dos nossos pacientes (69,70%), e, apesar de a revisão sistemática publicada por Jazayeri et al.1 em 2023 mostrar benefícios relacionados à opção pelo tratamento cirúrgico, especialmente em pacientes com fraturas com desvio significativo, trabalhos recentes2,13,18 demonstram que a opção por tratamentos não cirúrgicos ainda é predominante, diferentemente do que encontramos em nosso trabalho. Uma possível explicação seria o fato de o nosso hospital ser terciário, para o qual somente os casos mais graves de trauma são encaminhados.
Além deste estudo, outros12,13,15,16 também apresentaram predominância da via de acesso retromandibular em relação à pré-auricular, e alguns serviços têm optado mais recentemente pela via intraoral como opção aos acessos cutâneos.
Paralisia facial periférica pode ocorrer de maneira transitória ou definitiva, e seu mecanismo pode ser por compressão devido ao uso de afastadores cirúrgicos ou por lesão nervosa propriamente dita, e pode ocorrer independente da opção de acesso cirúrgico. Apresenta incidência variável na literatura, entre 2,43% e 18,3%, condizente com a nossa taxa de 11,11%. Diversas opções de tratamento são descritas na literatura de acordo com a causa e a cronicidade da paralisia. Elas geralmente envolvem acompanhamento multidisciplinar e variam de tratamentos menos invasivos, como a toxina botulínica, até retalhos complexos, normalmente microcirúrgicos, que por vezes combinam transferências musculares regionais e enxertos nervosos cross-face.10,12,13,18,19
A sialocele está relacionada ao acesso cirúrgico retromandibular, em que se alcança a fratura pela glândula parótida. Ela ocorreu em 11,11% dos nossos pacientes, e em 15,8% dos pacientes do estudo de Kulkarni et al.12 As opções de tratamento desta complicação são: aspirações repetidas, compressão externa, medicamentos antissialagogos, toxina botulínica, radioterapia e até a parotidectomia.12
Diversos trabalhos, incluindo a metanálise de Jazayeri et al.,1 avaliaram a DTM após fratura condilar, inclusive comparando o tratamento não cirúrgico com a redução aberta e fixação. O tratamento cirúrgico apresentou melhores resultados quando foram avaliados dor na articulação temporomandibular, movimentos laterais da mandíbula e má oclusão. Não encontramos trabalhos que compararam as vias de acesso e a incidência de DTM. Nosso trabalho evidenciou DTM com taxa redução de abertura oral pós-operatória de somente 3,70%, ao passo que outros estudos1,13,18 evidenciaram taxas entre 10,8% e 17,1%, mas a nossa amostra de pacientes é menor em relação à dos outros trabalhos.
Como limitações do nosso trabalho podemos citar o número reduzido de pacientes quando comparado com grandes centros especializados em trauma craniomaxilofacial e a possibilidade de nossos pacientes apresentarem casos mais graves, pois os pacientes com casos menos complexos provavelmente não foram encaminhados ao nosso serviço.
Conclusão
O tratamento cirúrgico de côndilo mandibular apresenta indicação crescente, mas está associado a complicações pós-operatórias que devem ser conhecidas, na tentativa de evitá-las ou de estabelecer sua terapêutica adequada.
Referências
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1. Departamento de Cirurgia Craniomaxilofacial, Hospital das Clínicas, Universidade
Federal de Uberlândia (EBSERH), Uberlândia, MG, Brasil
2. Clínica Otoface, Uberlândia, MG, Brasil
3. Clínica Rhinocenter, Uberlândia, MG, Brasil
Disponibilidade dos Dados Os dados serão disponibilizados mediante solicitação ao autor correspondente.
Suporte Financeiro Os autores declaram que não receberam suporte financeiro de agências dos setores público, privado ou sem fins lucrativos para a realização deste estudo.
Endereço para correspondência José Mauro de Oliveira Squarisi, MD, MSc, PhD, Departamento de Cirurgia Craniomaxilofacial, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Uberlândia (EBSERH), Uberlândia, MG, Brasil (e-mail: josemauro@ufu.br ).
Artigo submetido: 26/06/2025.
Artigo aceito: 24/11/2025.
Conflito de Interesses Os autores não têm conflito de interesses a declarar.
Editor-chefe: Dov Charles Goldenberg.














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