Original Article - Year 2026 - Volume 41Issue 1
Metodologia para as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica: boas práticas atuais
Methodology for the Guidelines of the Brazilian Society of Plastic Surgery: Current Best Practices
RESUMO
Introdução Diretrizes rápidas são necessárias em cenários que exigem recomendações oportunas, como o surgimento de novas intervenções ou demandas urgentes de orientação clínica, algo frequente na cirurgia plástica. Entretanto, a redução do tempo de desenvolvimento não deve comprometer o rigor metodológico nem a transparência do processo. Este estudo teve como objetivo sintetizar recomendações metodológicas para a elaboração de diretrizes rápidas.
Métodos Foi realizada uma revisão narrativa da literatura baseada em publicações metodológicas sobre desenvolvimento de diretrizes rápidas. A síntese dos dados foi conduzida de forma qualitativa e narrativa, organizando os achados de acordo com as diferentes etapas do processo de elaboração de diretrizes, desde o planejamento e definição do escopo até a formulação, implementação e atualização das recomendações.
Resultados A análise dos estudos identificou recomendações metodológicas para todas as etapas do desenvolvimento de diretrizes rápidas, incluindo definição do escopo, priorização de perguntas estruturadas, composição do painel, avaliação e síntese das evidências, formulação das recomendações e planejamento da implementação e atualização. Estratégias para otimizar o processo incluíram o uso de diretrizes previamente publicadas, aplicação do modelo de ADOLOPMENT, priorização de revisões sistemáticas existentes e utilização de frameworks estruturados, como GRADE, Summary of Findings (SoF) e Evidence to Decision (EtD). Entre os principais desafios, destacaram-se limitações de tempo, recursos humanos, disponibilidade de evidências e financiamento.
Conclusão Diretrizes rápidas podem ser desenvolvidas com qualidade metodológica adequada, desde que sejam utilizados processos estruturados, transparentes e baseados em evidências. A síntese apresentada pode servir como guia prático para a elaboração de diretrizes rápidas, especialmente no âmbito da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
Palavras-chave: guias como assunto; guia de prática clínica; política de saúde; declaração de consenso; fidelidade a diretrizes; abordagem GRADE; revisão sistemática
ABSTRACT
Introduction Rapid guidelines are needed in scenarios that require timely recommendations, such as the emergence of new interventions or urgent demands for clinical guidance, situations that are common in plastic surgery. However, shortened timelines should not compromise methodological rigor or transparency. This study aimed to synthesize methodological recommendations for developing rapid guidelines.
Methods A narrative review of the literaturewas conducted based on methodological publications addressing rapid guideline development. Data were synthesized qualitatively and narratively, organizing findings according to the main stages of guideline development, from planning and scope definition to recommendation formulation, implementation, and updating.
Results The included studies provided methodological recommendations covering all stages of rapid guideline development, including scope definition, prioritization of structured questions, panel composition, evidence assessment and synthesis, formulation of recommendations, and planning for implementation and updating. Strategies to optimize the process included the use of existing guidelines, the GRADE-ADOLOPMENT model, prioritization of available systematic reviews, and application of structured frameworks such as GRADE, Summary of Findings (SoF), and Evidence to Decision (EtD). Key challenges included limited time, human resources, availability of evidence, and financial constraints.
Conclusion Rapid guidelines can be developedwith adequatemethodological quality when structured, transparent, and evidence-based processes are followed. The synthesis presentedmay serve as a practical guide for the development of rapid guidelines, particularly within the Brazilian Society of Plastic Surgery (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, SBCP, in Portuguese).
Keywords: guidelines as topic; practice guideline; health policy; consensus statement; guideline adherence; GRADE approach; systematic review
Introdução
Diretrizes contêm recomendações para orientar usuários (por exemplo, profissionais de saúde, população em geral ou pacientes) sobre os benefícios e danos de uma intervenção específica ou situação, com o objetivo de alcançar o melhor desfecho em saúde.
As diretrizes diferem de acordo com seu propósito, escopo e prazo de desenvolvimento.
Normalmente, as diretrizes tradicionais levam cerca de dois anos ou mais para serem desenvolvidas devido às várias etapas necessárias, incluindo identificação de desfechos importantes, identificação das evidências, síntese e apresentação das evidências, revisão por pares, disseminação e implementação, entre outras.1
No entanto, certas situações exigem o desenvolvimento, a disseminação e a implementação de diretrizes em um prazo reduzido, como em resposta a uma emergência de saúde pública, a uma crise humanitária urgente, ao surgimento de novas modalidades de tratamento ou a novas evidências sobre tratamentos já existentes.2 O surgimento de novas evidências relevantes em termos de eficácia, segurança ou custo-efetividade sobre uma intervenção nova ou já existente é frequentemente considerado o principal motivo para o desenvolvimento de diretrizes rápidas. Outras justificativas incluem a necessidade de responder à opinião pública ou solicitações urgentes por orientações provenientes de entidades externas.3 Tais situações são frequentes na especialidade de cirurgia plástica.
Diretrizes rápidas (rapid guidelines – RGs) referem-se a diretrizes que relatam o uso de um prazo encurtado para seu desenvolvimento. Um desafio na elaboração de diretrizes rápidas é manter o rigor metodológico ao mesmo tempo em que se atende a um prazo de desenvolvimento reduzido.2 De fato, diretrizes desenvolvidas rapidamente não devem ser associadas à falta de confiabilidade.3 Para contemplar estes desafios, diversas recomendações foram publicadas. O presente artigo se trata de uma revisão narrativa dessas recomendações, visando à elaboração de um guia a ser utilizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) no desenvolvimento de diretrizes médicas dentro desta especialidade.
Métodos
Esta revisão narrativa foi conduzida com o objetivo de sintetizar os principais conceitos metodológicos relacionados à elaboração de diretrizes rápidas e revisões sistemáticas rápidas da literatura. O desenvolvimento da revisão seguiu recomendações para a elaboração de revisões narrativas, incluindo definição prévia da pergunta, estratégia estruturada de busca, critérios de inclusão e exclusão e síntese crítica da literatura.4,5
O presente estudo foi conduzido em conformidade com os princípios éticos aplicáveis à pesquisa envolvendo seres humanos, seguindo integralmente os preceitos da Declaração de Helsinque da Associação Médica Mundial, revisada em 2013, bem como as diretrizes e normas regulamentadoras brasileiras para pesquisa em seres humanos. O protocolo atendeu às disposições da Resolução n.° 466/2012 e da Resolução n.° 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), além das orientações complementares estabelecidas pela Carta Circular n.° 166/2018 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).
Os autores utilizaram a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT da OpenAI (versão GPT-5.5) exclusivamente para revisão linguística, correção gramatical e aprimoramento da coesão e legibilidade das frases durante a preparação do manuscrito. Nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi utilizada para análise de dados, interpretação de resultados, tomada de decisões científicas ou geração de conteúdo científico original. Todo o conteúdo final foi criticamente revisado e aprovado pelos autores, que assumem total responsabilidade pelo manuscrito.
Estratégia de Busca
Foi realizada busca narrativa estruturada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Embase, Scopus e Google Scholar. A estratégia de busca combinou descritores relacionados a diretrizes rápidas e revisões rápidas, incluindo:
“rapid guidelines”, “rapid review”, “rapid systematic review”, “guideline development”, “evidence synthesis”, “methodology”, “emergency guideline development”.
Os termos foram combinados utilizando operadores booleanos (AND/OR). A seleção dos descritores foi baseada na transformação dos conceitos centrais em palavras-chave abrangentes, conforme recomendado para revisões narrativas, permitindo recuperar estudos relevantes sem restringir excessivamente a busca. Também foi realizada busca manual nas referências dos artigos selecionados para identificar estudos adicionais relevantes.
Critérios de Inclusão e Exclusão
Foram incluídos: artigos metodológicos sobre diretrizes rápidas; artigos metodológicos sobre rapid reviews; documentos de organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Colaboração Cochrane; revisões narrativas ou sistemáticas relevantes; e estudos publicados em inglês, português ou espanhol, sem restrições de datas.
Foram excluídos: artigos não relacionados à metodologia; relatos opinativos sem descrição metodológica; estudos duplicados; e publicações retratadas.
A definição explícita desses critérios foi adotada para reduzir viés de seleção e manter o foco da revisão, conforme recomendado para revisões narrativas com abordagem estruturada.
Seleção dos Estudos
Os títulos e resumos identificados na busca foram avaliados inicialmente quanto à relevância. Em seguida, os textos completos potencialmente elegíveis foram analisados. Estudos adicionais foram identificados por busca manual nas listas de referências dos artigos incluídos.
Extração e Síntese dos Dados
Os estudos incluídos foram analisados quanto aos seguintes aspectos: definição de diretrizes rápidas; definição de revisões sistemáticas rápidas; etapas metodológicas; diferenças em relação às revisões tradicionais; estratégias de aceleração metodológica; limitações e riscos de viés; e recomendações de boas práticas.
Cada artigo foi avaliado criticamente, considerando resultados principais, limitações metodológicas, adequação dos métodos e impacto das conclusões.
A síntese dos dados foi realizada de forma narrativa, organizando os achados em categorias temáticas e elaborando um texto contendo suas principais recomendações. Esse tipo de síntese é apropriado para revisões narrativas, nas quais os dados são integrados e interpretados criticamente, sem combinação estatística formal.
Resultados
A análise dos estudos incluídos permitiu identificar recomendações metodológicas para o desenvolvimento de diretrizes rápidas, contemplando as diferentes etapas do processo, desde o planejamento e definição do escopo até a formulação, implementação e atualização das recomendações. Os achados foram sintetizados de forma narrativa e organizados em um texto estruturado de acordo com as etapas do desenvolvimento de diretrizes rápidas.
O documento apresenta uma proposta metodológica para elaboração de diretrizes da SBCP, fundamentada em princípios contemporâneos de medicina baseada em evidências e adaptada a diferentes cenários de urgência. O texto enfatiza que diretrizes clínicas devem ser sistemáticas, transparentes e sustentadas pelas melhores evidências disponíveis, conciliando rigor metodológico e necessidade de respostas rápidas diante de novas evidências, tecnologias ou demandas públicas.
São descritos quatro níveis de desenvolvimento de diretrizes conforme o tempo disponível: ultrarrápidas (1–2 horas); urgentes (1–2 semanas); rápidas (1–3 meses); e tradicionais (>3 meses). Em cenários de maior urgência, recomenda-se restringir o escopo das perguntas clínicas por meio de estruturas como PICO (Patient, Intervention, Control, and Outcomes) e PECO (Population, Exposure, Comparator, and Outcomes), priorizando desfechos críticos e utilizando, preferencialmente, diretrizes e revisões sistemáticas previamente publicadas. Na ausência dessas fontes, a hierarquia da evidência deve incluir ensaios clínicos randomizados, estudos primários e, por fim, opinião de especialistas.
O documento destaca o sistema GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) como principal ferramenta para avaliação da qualidade da evidência e formulação das recomendações. O GRADE classifica a evidência em alta, moderada, baixa ou muito baixa, considerando domínios como risco de viés, inconsistência, imprecisão, indireção e viés de publicação. Também são apresentados os frameworks Summary of Findings (SoF) e Evidence to Decision (EtD), utilizados para sintetizar evidências e apoiar a transformação dessas informações em recomendações clínicas transparentes.
A metodologia proposta enfatiza a avaliação crítica da literatura segundo critérios de relevância, credibilidade e atualidade, além da possibilidade de adoção, adaptação ou desenvolvimento de novas recomendações. Ferramentas como AGREE II, AMSTAR-2, ROBIS e ROBUST-RCT são mencionadas para avaliação metodológica de diretrizes, revisões sistemáticas e ensaios clínicos. O texto também aborda conceitos centrais do GRADE, incluindo diferença minimamente importante (MID), análise de imprecisão, inconsistência estatística, indireção e risco de viés.
Na formulação das recomendações, consideram-se a magnitude dos benefícios e danos, a qualidade da evidência e os valores e preferências dos pacientes. As recomendações podem ser fortes ou condicionais, a favor ou contra determinada intervenção, devendo ser utilizada linguagem padronizada (“recomendamos” para recomendações fortes e “sugerimos” para condicionais).
Por fim, o texto aborda diretrizes rápidas e o uso de atalhos metodológicos, fundamentados na extensão do GIN-McMaster Guideline Development Checklist (GDC) para recomendações rápidas. Destacam-se a necessidade de planejamento estruturado, a priorização de questões clínicas relevantes, reuniões virtuais, a síntese rápida da evidência, a transparência metodológica e a previsão de futura atualização para diretrizes tradicionais mais abrangentes. O documento final se encontra como ►Anexo 1 a este artigo (disponível online).
Discussão
A presente revisão narrativa sintetizou recomendações metodológicas para o desenvolvimento de diretrizes rápidas, destacando que, embora esse formato tenha como objetivo reduzir o tempo necessário para a elaboração de recomendações, é fundamental manter o rigor metodológico e a transparência do processo. Diretrizes rápidas devem fornecer informações comparáveis às diretrizes tradicionais, incluindo descrição explícita dos métodos utilizados e reconhecimento dos potenciais fatores limitantes introduzidos por abordagens abreviadas. Essa transparência é essencial para que os usuários possam interpretar adequadamente o grau de qualidade das evidências e a força das recomendações.2
Apesar de a OMS sugerir que diretrizes rápidas sejam desenvolvidas em um período entre 1 e 3 meses, esse prazo representa um desafio importante. Estudos metodológicos demonstram que o tempo mediano para o desenvolvimento dessas diretrizes pode ser substancialmente maior, chegando a aproximadamente 8,5 meses em média, o que evidencia a complexidade envolvida no processo, mesmo quando estratégias abreviadas são utilizadas.2
Entre os principais obstáculos relatados estão a limitação de recursos humanos, especialmente para composição do grupo de trabalho e coordenação metodológica, além da necessidade de familiarização dos especialistas com o processo de elaboração de diretrizes rápidas. A escassez de evidências disponíveis e a limitação de recursos financeiros também são fatores que podem dificultar o desenvolvimento e a implementação dessas diretrizes.3 A subjetividade envolvida em praticamente todas as decisões importantes relacionadas à classificação da qualidade da evidência e à transição das evidências para as recomendações presentes no sistema GRADE também é uma limitação relevante.6
Outro aspecto relevante identificado nesta revisão é a importância de utilizar estratégias que otimizem o processo, como o reaproveitamento de diretrizes previamente publicadas, o uso do modelo “ADOLOPMENT”, a priorização de revisões sistemáticas existentes e, quando necessário, a realização de revisões sistemáticas rápidas. A utilização de frameworks estruturados, como as tabelas SoF e EtD, também contribui para tornar o processo mais transparente, facilitando a avaliação da qualidade das evidências e a adaptação das recomendações ao contexto específico. Além disso, o uso de reuniões virtuais, votação prévia entre os membros do painel e definição clara do escopo e das perguntas estruturadas são estratégias que podem aumentar a eficiência sem comprometer a qualidade metodológica.
No contexto da cirurgia plástica, a necessidade de diretrizes rápidas é particularmente relevante, considerando o surgimento frequente de novas técnicas, novos dispositivos e novas intervenções, muitas vezes acompanhados por evidências ainda limitadas. Nesses cenários, a elaboração de recomendações baseadas em métodos estruturados torna-se essencial para orientar a prática clínica e evitar a adoção precoce de intervenções sem adequada avaliação crítica das evidências disponíveis.
Os autores deste artigo esperam que a síntese metodológica apresentada possa servir como um guia prático para a elaboração de diretrizes rápidas com rigor metodológico adequado, especialmente no âmbito da SBCP. A adoção de processos estruturados e transparentes poderá contribuir para o desenvolvimento de recomendações confiáveis, oportunas e adaptadas às necessidades da especialidade, promovendo maior padronização e qualidade na tomada de decisão clínica.
Conclusão
As diretrizes rápidas representam uma ferramenta importante para orientar a tomada de decisão em cenários que exigem respostas oportunas, como o surgimento de novas evidências ou de intervenções emergentes, situações comuns na cirurgia plástica. No entanto, mesmo em prazos reduzidos, seu desenvolvimento deve manter rigor metodológico, transparência e uso estruturado das evidências, de modo a garantir a confiabilidade das recomendações. A síntese apresentada neste estudo oferece um conjunto de recomendações práticas para o desenvolvimento de diretrizes rápidas, organizadas de forma sistemática ao longo das diferentes etapas do processo. Espera-se que este material possa servir como guia para a elaboração de diretrizes rápidas, metodologicamente robustas, particularmente no âmbito da SBCP, contribuindo para a produção de recomendações confiáveis, transparentes e aplicáveis à prática clínica.
Referências
1. WHO handbook for guideline development, 2nd Edition. https://www.who.int/publications/i/item/9789241548960
2. Kowalski SC, Morgan RL, Falavigna M, et al. Development of rapid guidelines: 1. Systematic survey of current practices and methods. Health Res Policy Syst 2018;16(01):61
3. Florez ID, Morgan RL, Falavigna M, et al. Development of rapid guidelines: 2. A qualitative study with WHO guideline developers. Health Res Policy Syst 2018;16(01):62
4. Green BN, Johnson CD, Adams A. Writing narrative literature reviews for peer-reviewed journals: secrets of the trade. J Chiropr Med 2006;5(03):101–117
5. Ferrari R. Writing narrative style literature reviews. Med Writ 2015;24:230–235
6. Guyatt G, Agoritsas T, Brignardello-Petersen R, et al. Core GRADE 1: overview of the Core GRADE approach. BMJ 2025;389:e081903
Material Suplementar S1 Metodologia para elaboração das diretrizes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica: Boas práticas atuais
Diretrizes são recomendações sistemáticas, baseadas nas melhores evidências e no julgamento transparente de especialistas e partes interessadas, fundamentais para orientar a prática clínica, a saúde pública e a gestão em saúde. Sua elaboração tradicional é demorada, podendo levar mais de dois anos.1 No entanto, diante de novas evidências relevantes, do surgimento de novas modalidades de tratamento ou da necessidade de resposta rápida à opinião pública, torna-se necessário produzir recomendações em curto prazo, exigindo equilíbrio entre agilidade e confiabilidade por parte dos grupos elaboradores.2–4 Tais cenários são comuns na cirurgia plástica.
A literatura descreve quatro níveis de urgência na elaboração de diretrizes: ultrarrápida (1–2 horas), urgente (1–2 semanas), rápida (1–3 meses) e de rotina/tradicional (>3 meses). Em respostas urgentes, é essencial restringir o escopo e formular perguntas específicas, geralmente por meio de estruturas como PICO ou PECO, que organizam população, intervenção/exposição, comparador e desfechos. Quanto mais precisa a definição desses elementos—especialmente da população e dos desfechos prioritários—mais viável e ágil se torna o desenvolvimento de recomendações confiáveis.4 O infográfico da ►Figura Suplementar S1 menciona os procedimentos a serem adotados de acordo com cada cenário de tempo disponível, os quais estão detalhados na forma de um fluxograma na ►Figura Suplementar S2 Em diretrizes urgentes (1-2 semanas), prioriza-se o uso de diretrizes e revisões sistemáticas já existentes, evitando novas revisões sempre que possível. Na ausência dessas fontes, a busca deve seguir uma hierarquia: ensaios clínicos randomizados, outros estudos primários e, por fim, opiniões de especialistas.4
Avaliação da adequação da literatura e sistema GRADE
Após identificar a literatura relevante, recomenda-se avaliar sua qualidade com o sistema GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation), que classifica a evidência em alta, moderada, baixa ou muito baixa.5,6 Esse sistema é amplamente utilizado por organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Colaboração Cochrane e a American Society of Plastic Surgeons (ASPS).
As recomendações são caracterizadas pela direção—a favor ou contra uma intervenção—e pela força—forte, quando os benefícios superam claramente os riscos, ou condicional (fraca), quando há maior incerteza.7
O GRADE inclui as tabelas Summary of Findings (SoF), que sintetizam de forma padronizada os efeitos das intervenções e a qualidade da evidência, e os frameworks Evidence to Decision (EtD), que auxiliam na transformação dessas evidências em recomendações.8 Enquanto as SoF resumem o que os estudos mostram, os EtD orientam como decidir a partir dessas informações, podendo ser operacionalizados por desenvolvedores de diretrizes por ferramentas como o iEtD (disponível em: https://ietd.epistemonikos.org/).9
Critérios de relevância, credibilidade e atualidade
Após identificar a literatura—diretrizes, revisões sistemáticas ou, na ausência destas, estudos primários—, sua adequação deve ser avaliada por três critérios: relevância, credibilidade e atualidade. A relevância refere-se à aplicabilidade direta da evidência à pergunta clínica; discrepâncias tornam a evidência indireta. A credibilidade envolve a qualidade metodológica, podendo ser avaliada por instrumentos como AGREE II10 (diretrizes), AMSTAR-211 e ROBIS12 (revisões sistemáticas). A atualidade depende de quão recentes são as buscas na literatura analisada e da eventual existência de novas evidências, o que pode ser verificado em uma atualização rápida.4
Essa avaliação não precisa abranger toda a literatura, mas apenas as evidências utilizadas na recomendação. Além disso, não é dicotômica: diferentes fontes podem apresentar limitações em graus variados, devendo-se priorizar, nessa ordem, relevância, credibilidade e atualidade—de modo que evidências mais relevantes podem ser preferidas mesmo que menos recentes.4
Conforme a disponibilidade e adequação da literatura, as recomendações podem ser elaboradas por quatro estratégias: adotar recomendações existentes nas diretrizes, adaptá-las, desenvolver novas com base em revisões sistemáticas disponíveis ou, na ausência destas, basear-se em opinião de especialistas.4
Adoção ou adaptação de recomendações existentes
A busca na literatura pode identificar uma diretriz original considerada adequada para a resposta urgente, ou seja, relevante, confiável e atual. Nessa situação, o painel de especialistas deve decidir se a recomendação será adotada tal como apresentada ou se será adaptada. Na prática, considera-se que uma recomendação é adotada quando não há modificação na sua direção nem na sua força. Caso contrário, quando há alterações nesses aspectos, a recomendação será adaptada.4
Para decidir entre adotar ou adaptar uma recomendação, o painel deve avaliar se diferenças de contexto podem alterar sua direção ou força, utilizando especialmente as tabelas SoF e EtD da diretriz original. Fatores como a importância dos desfechos, a possível indireção das evidências e a reavaliação de sua qualidade—considerando risco de viés, imprecisão, inconsistência ou novas evidências—podem justificar modificações.
Assim, é essencial revisar criticamente a classificação GRADE da diretriz original à luz do novo contexto, o que requer compreensão básica desse sistema.4
Classificação da qualidade da evidência no GRADE
O sistema GRADE classifica a qualidade da evidência em quatro níveis (alta, moderada, baixa e muito baixa), considerando o conjunto de evidências para cada desfecho, e não estudos isolados.7,13 Ensaios clínicos randomizados iniciam como alta qualidade, enquanto estudos não randomizados começam como baixa, podendo haver rebaixamento para muito baixa por limitações como risco de viés, imprecisão, inconsistência, indireção e viés de publicação, ou elevação em casos específicos, como grande magnitude de efeito ou gradiente dose-resposta. O rebaixamento, tanto para estudos randomizados como não randomizados, ocorre conforme a gravidade das limitações, sendo realizado em um (por exemplo, de alta para moderada) ou dois níveis (de alta para baixa).7
Importância dos desfechos e diferença minimamente importante (MID)
Na transição das evidências para recomendações, o painel deve considerar a importância dos desfechos de benefício, dano e ônus sob a perspectiva dos pacientes, sendo que a menor qualidade entre os desfechos críticos define a qualidade global da evidência.7 Além de identificar a existência de efeito, é essencial avaliar sua relevância clínica.
Para isso, utiliza-se o conceito de diferença minimamente importante (MID), que representa a menor mudança percebida como relevante pelos pacientes. Assim, a avaliação pode focar na presença de efeito (em relação ao efeito nulo) ou em sua importância clínica (superação da MID). A qualidade da evidência é então julgada considerando limitações como imprecisão, inconsistência, risco de viés, indireção e viés de publicação.14
Imprecisão
Estudos de intervenção estimam o efeito verdadeiro do tratamento, sendo a metanálise a melhor estimativa pontual, enquanto o intervalo de confiança (IC), geralmente de 95%, indica a faixa provável desse efeito. Estudos com amostras pequenas tendem a apresentar maior imprecisão,15 o que se reflete em intervalos de confiança mais amplos, especialmente quando incluem tanto benefício quanto ausência de efeito.14
No GRADE, a imprecisão é avaliada conforme a posição do intervalo de confiança (IC) em relação ao efeito nulo ou à diferença minimamente importante (MID), podendo levar ao rebaixamento da evidência em um ou dois níveis. Se o IC abrange o limiar de interesse escolhido, seja o efeito nulo ou a MID, deve-se rebaixar a evidência por imprecisão, independentemente do tamanho da amostra. Quando o IC não abrange o limiar, mas o efeito é muito grande (redução do risco relativo acima de 40%), é necessário cautela, pois efeitos exagerados são raros. Nesses casos, se o número de pacientes for pequeno, também se recomenda o rebaixamento por imprecisão. Para essa avaliação, utiliza-se otamanho ótimo de informação (OIS), que representa o número ideal de participantes na metanálise. Se a metanálise atingir esse valor, não se rebaixa; caso contrário, recomenda-se o rebaixamento.
Inconsistência
A inconsistência no GRADE refere-se à divergência entre resultados de estudos sobre a mesma intervenção. Ela é sugerida quando estimativas pontuais dos efeitos dos tratamentos diferem amplamente, os intervalos de confiança pouco se sobrepõem ou apontam em direções opostas, reduzindo a qualidade da evidência.16
A inconsistência pode decorrer do simples acaso ou de uma heterogeneidade real, sendo o I2 o principal indicador dessa variabilidade. Valores baixos do I2 (<30%) raramente indicam inconsistência relevante, enquanto valores elevados aumentam a probabilidade de rebaixamento da evidência. A interpretação do I2, contudo, deve ser cautelosa quando os intervalos de confiança são muito estreitos.15,16
Risco de viés
O risco de viés é um domínio central do GRADE e deve ser avaliado por meio de instrumentos específicos.17 Em ensaios clínicos randomizados, ferramentas como o ROBUST-RCT18 analisam aspectos como randomização, ocultação da alocação, cegamento e perdas de dados, classificando os estudos como de baixo ou alto risco. A evidência de cada estudo pode ser rebaixada quando há limitações relevantes em um ou mais desses domínios, e de forma global quando estudos com alto risco de viés predominam (>55%) no conjunto das evidências.
O impacto do viés, contudo, depende de sua direção: se houver tendência de superestimar um efeito que não foi observado, pode não haver justificativa para rebaixamento. Além disso, quando há divergência entre estudos de alto e baixo risco de viés, a análise pode ser baseada apenas nos estudos de baixo risco de viés sem rebaixar a qualidade de evidência.
Estudos controlados não randomizados iniciam com baixa qualidade de evidência e podem ser rebaixados adicionalmente conforme avaliação por instrumentos como a escala Newcastle-Ottawa.19 Na ausência de fatores que justifiquem esse rebaixamento, podem, em situações específicas, ter sua qualidade elevada—por exemplo, quando apresentam grande magnitude de efeito(como dobrar o efeito positivo ou reduzir o risco pela metade) ou evidência de gradiente dose–resposta— sempre com cautela quanto à presença de possíveis confundidores. Já séries de casos ou estudos de braço único, em geral, são classificados como de qualidade de evidência muito baixa.
Viés de publicação
O viés de publicação, outro domínio do GRADE, ocorre quando estudos—especialmente com resultados negativos—não são publicados, distorcendo a estimativa do efeito. Sua avaliação é indireta e frequentemente baseada no gráfico de funil, no qual a presença de assimetria nesse gráfico pode sugerir esse viés, embora não seja conclusiva. Há alto risco desse viés quando há predominância de estudos pequenos e financiados pela indústria, podendo justificar o rebaixamento da qualidade da evidência.17
Indireção
A indireção, último domínio do GRADE, refere-se à discrepância entre a pergunta clínica (PICO) da diretriz em desenvolvimento e as evidências disponíveis, ocorrendo quando há diferenças na população, intervenção, comparador ou desfechos. Nem toda diferença implica rebaixamento, mas ele pode ser necessário quando essas discrepâncias alteram o efeito esperado.
Isso ocorre, por exemplo, ao extrapolar dados entre populações com perfis clínicos muito distintos ou ao utilizar evidências de tecnologias desatualizadas. A indireção também pode surgir quando os desfechos avaliados não refletem diretamente o que importa ao paciente, como no uso de desfechos substitutos—medidas indiretas (geralmente laboratoriais ou intermediárias) que não representam diretamente um benefício clínico relevante, mas funcionam como marcadores do efeito da intervenção. Nesses casos, quando a evidência não corresponde adequadamente ao contexto ou aos desfechos clínicos relevantes, a qualidade deve ser rebaixada.20
Aspectos Complementares a Serem Considerados
Quando a metanálise não é possível—por incompatibilidade ou insuficiência de dados—recorre-se à síntese narrativa, mantendo a avaliação por desfecho e aplicando os mesmos domínios do GRADE para classificar a qualidade da evidência.8 O checklist SWiM (Synthesis without meta-analysis) traz mais detalhes a esse respeito.21
Na presença de ensaios randomizados e estudos não randomizados, prioriza-se a evidência de maior qualidade; quando essa qualidade é semelhante, ambos podem ser apresentados. Além dos domínios do GRADE, também podem ser considerados para elaboração de recomendações fatores contextuais, como a perspectiva da diretriz (individual ou populacional), uso de recursos, equidade, aceitabilidade e viabilidade.22
A decisão de adaptar recomendações depende de diferenças relevantes entre o contexto da diretriz original e o atual. Quando houver adaptação, suas justificativas devem ser descritas, e a redação das recomendações pode ser ajustada para melhorar a aplicabilidade ao públicoalvo.4
Formulação das recomendações no GRADE
As recomendações no GRADE são definidas por sua direção (a favor ou contra) e força (forte ou condicional), resultando em quatro categorias principais, além da opção, rara, de restringir o uso à pesquisa. Recomendações fortes são feitas quando há clara predominância entre benefícios e danos e alta concordância pela intervenção entre pacientes bem informados; já as condicionais refletem maior incerteza ou variabilidade nas preferências, exigindo decisão compartilhada.23 (►Figura Suplementar S3)
A definição da recomendação baseia-se em três pilares: magnitude dos benefícios, danos e ônus; qualidade da evidência; e valores e preferências dos pacientes, frequentemente organizados pelos frameworks EtD. A magnitude dos benefícios é interpretada à luz da diferença minimamente importante (MID), avaliando-se se a intervenção a supera. O valor da MID pode ser definido pela literatura, por entrevistas aos pacientes ou, na ausência desses dados, por consenso do painel.
A definição da direção e da força das recomendações depende, inicialmente, do nível da qualidade da evidência e, em seguida, do equilíbrio entre benefícios e danos da intervenção.
Quando há evidência de alta ou moderada qualidade, se a relação benefício/dano favorece claramente uma intervenção, deve-se formular uma recomendação forte. Por outro lado, quando a relação benefício/dano está mais equilibrada, a recomendação tende a ser condicional.
Quando a evidência é de baixa ou muito baixa qualidade, a recomendação geralmente será condicional, seja quando a relação benefício/dano favorece uma intervenção ou não. No entanto, em circunstâncias excepcionais, mesmo com baixa qualidade da evidência, pode-se emitir uma recomendação forte, como quando a intervenção está associada a alto risco ou dano relevante. O GRADE também padroniza a linguagem: “recomendamos” para recomendações fortes e “sugerimos” para condicionais, evitando termos ambíguos como “considerar.” O presente texto apresenta uma versão simplificada e resumida do sistema GRADE, maiores informações encontram-se publicadas na literatura.7,8,14,16,17,20,23
Recomendações em cenários com evidência limitada ou urgência extrema
Além da possibilidade de adotar ou adaptar uma recomendação já existente em uma diretriz prévia, novas recomendações podem ser elaboradas em contextos urgentes (1–2 semanas) quando surgem evidências recentes após a publicação de diretrizes anteriores ou, na ausência destas, a partir de revisões sistemáticas adequadas, seguindo o método GRADE, com eventuais simplificações para cumprimento de prazos.24
Quando não há diretrizes nem revisões sistemáticas disponíveis, as recomendações em contextos urgentes (1–2 semanas) podem basear-se na evidência de especialistas, uma vez que não há tempo hábil para a condução de revisões sistemáticas rápidas. Nesses casos, o painel revisa a literatura disponível de forma não sistemática dentro do prazo exíguo e registra suas contribuições em frameworks EtD, que são posteriormente consolidados e discutidos até a obtenção de consenso, por meio de deliberação ou votação.4
Em cenários emergenciais ultrarrápidos (1–2 horas), pode ser necessário recorrer a evidências indiretas, com rebaixamento da qualidade por indireção. Nessas situações extremas, as recomendações podem basear-se exclusivamente na opinião de especialistas, sem revisão sistemática ou participação de metodologistas, devendo ter caráter explicitamente provisório e ser passíveis de revisão à medida que o painel disponha de maior tempo para deliberação ou que novas evidências surjam.25–27 (►Figura Suplementar S2)
Diretrizes rápidas e uso de atalhos metodológicos
Quando não há cenário emergencial ultrarrápido (1–2 horas), nem urgência (1–2 semanas), podem ser desenvolvidas diretrizes rápidas (1–3 meses). Essas diretrizes utilizam versões abreviadas do processo metodológico tradicional, com o desafio central de reduzir etapas sem comprometer a validade e a credibilidade. Para isso, é fundamental preservar os “elementos essenciais” do método, garantindo recomendações confiáveis.22 (►Figura Suplementar S2)
Nas diretrizes tradicionais (>3 meses), o Guideline International Network (GIN)–McMaster Guideline Development Checklist (GDC) é uma das principais referências. Trata-se de um checklist abrangente que orienta todas as etapas do processo—do planejamento à implementação e atualização— e se consolidou como padrão internacional para a elaboração de diretrizes tradicionais.3,28
Diante da necessidade de orientar especificamente o desenvolvimento de diretrizes rápidas, foi publicada, em 2018, uma extensão do GDC, que define os princípios essenciais a serem mantidos mesmo em processos abreviados.22
Os primeiros princípios das diretrizes rápidas enfatizam planejamento estruturado e pragmatismo. Inicialmente, deve-se definir o tempo disponível e quais elementos do GDC serão mantidos, ajustando o método conforme limitações de recursos, sem comprometer a qualidade. Sempre que possível, deve-se estabelecer previamente uma data de entrega.22
O planejamento antecipado é fundamental e inclui a criação de procedimentos operacionais padrão, templates, identificação precoce de revisores e organização das reuniões do painel. Além disso, é necessário justificar claramente a adoção de uma diretriz rápida, geralmente motivada por novas evidências relevantes (segurança, eficácia ou custo-efetividade) ou pela necessidade de orientação rápida.
Também deve ser avaliada a necessidade de recomendações emergenciais antes da diretriz rápida, que, se necessárias, devem ser incorporadas ao planejamento. Por fim, a composição do grupo deve envolver membros-chave, podendo ser reduzida para maior agilidade, e, quando possível, contar com recursos adicionais para otimizar a condução do processo, como a contratação de pessoal extra—incluindo profissionais dedicados em tempo integral. A gestão de conflitos de interesse deve ser ágil, podendo exigir restrições na composição do painel; ainda assim, em alguns casos, a participação de especialistas com expertise altamente específica pode ser necessária, mesmo diante de potenciais conflitos.
Os princípios seguintes enfatizam a organização e a eficiência operacional do processo. A criação de um banco de dados de especialistas por área de atuação facilita a rápida composição do painel e a seleção de revisores. Em cenários com prazos curtos, deve-se priorizar o uso de reuniões virtuais para agilizar a tomada de decisão. Também é essencial definir previamente o público-alvo e o tema da diretriz, idealmente com comunicação antecipada.
A formulação das perguntas PICO deve refletir as limitações de recursos, com foco em maior precisão e, quando necessário, redução do número de perguntas e do escopo da diretriz. A priorização adequada das questões é fundamental, devendo ser claramente documentada para garantir transparência no processo.
Recomenda-se restringir a análise aos desfechos mais importantes (críticos) para a tomada de decisão, assegurando a consideração tanto de benefícios quanto de danos. A definição desses desfechos pode ocorrer de forma iterativa pelos membros do painel, refinando progressivamente sua relevância.
Os valores e preferências dos pacientes permanecem centrais, podendo ser avaliados de forma indireta—por meio da literatura ou, na ausência de dados, com base na experiência do painel—desde que representem adequadamente a perspectiva dos pacientes.
A estratégia de busca e síntese das evidências deve refletir os recursos disponíveis, priorizando o uso de diretrizes ou revisões sistemáticas já existentes, que podem ser adotadas, adaptadas ou atualizadas conforme mencionado anteriormente no contexto de urgências. Para essas adaptações, podem ser utilizadas, se necessário, metodologias específicas, como o adolopment24 e o ADAPTE.29,30
Em contexto de diretrizes rápidas (1–3 meses), na ausência de diretrizes ou revisões sistemáticas previamente publicadas, recomenda-se a realização de revisões sistemáticas rápidas, cuja metodologia está bem descrita na literatura médica.13,31–38
Além disso, estudos primários e contribuições de especialistas podem complementar as tabelas Summary of Findings (SoF) da nova diretriz rápida. A formulação das recomendações pode ser acelerada por meio de votações prévias, com a disponibilização antecipada das tabelas SoF aos membros do painel. Eventuais discordâncias podem então ser discutidas em reuniões virtuais, com o objetivo de alcançar consenso, com apoio de ferramentas como o GRADEpro (https://www.gradepro.org/).
Para muitas questões clínicas, a evidência publicada pode ser muito limitada ou inexistente; nesses casos, o painel pode optar por não emitir recomendações, basear-se em opinião de especialistas ou buscar gerar dados primários. Quando há tempo disponível, uma estratégia é obter dados por meio de levantamentos online estruturados com especialistas com expertise no tema, coletando observações não publicadas e séries de casos. As recomendações resultantes tendem a basear-se em evidência de muito baixa qualidade; ainda assim, essa síntese, mesmo com limitações, é mais robusta do que decisões baseadas exclusivamente na opinião de especialistas.39
A redação das recomendações deve ser definida durante as reuniões do painel, idealmente de forma concomitante à avaliação das evidências, utilizando linguagem padronizada que explicite primeiramente a direção e, posteriormente, a força da recomendação. De modo geral, deve-se formular recomendações a favor de uma determinada conduta, em vez de contra uma abordagem específica. No entanto, quando um tratamento ineficaz ou potencialmente prejudicial estiver amplamente em uso, pode ser apropriado emitir uma recomendação contrária a essa prática.23
A transparência do processo é essencial, especialmente quando as evidências são limitadas, devendo-se documentar claramente os métodos de revisão e avaliação. A revisão por pares da diretriz permanece uma etapa crítica, podendo ser agilizada com definição prévia de revisores e prazos.
Além disso, uma análise da implementação da diretriz rápida deve ser considerada, avaliando-se aspectos como viabilidade e possíveis barreiras, que devem ser descritas. Por fim, é recomendável estabelecer previamente a data para desenvolvimento de uma diretriz tradicional, a qual seguirá as orientações do Guideline International Network (GIN)–McMaster Guideline Development Checklist (GDC),28 garantindo a atualização futura e mais completa das recomendações.22
Referências
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1. Disciplina de Cirurgia Plástica, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São
Paulo, SP, Brasil
2. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, São Paulo, SP, Brasil
3. Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
4. Centro Universitário Unieuro, Brasília, DF, Brasil
5. Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, BA, Brasil
6. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP),
São Paulo, SP, Brasil
7. Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, Paraná, Brasil
8. Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), Belo Horizonte, MG, Brasil
Disponibilidade dos Dados Os dados serão disponibilizados mediante solicitação ao autor correspondente.
Endereço para correspondência Juan Carlos Montano Pedroso, Disciplina de Cirurgia Plástica da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP, CEP, Brasil (e-mail: juancmontano@gmail.com).
Artigo submetido: 18/05/2026.
Artigo aceito: 01/06/2026.
Conflito de Interesses Os autores não têm conflito de interesses a declarar.
Editor-chefe: Dov Charles Goldenberg.









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