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Médicos alertam para manuseio sem cuidado do produto inflamável indicado para limpar as mãos durante a pandemia

Por Cláudia Collucci

Em 3 de maio, um domingo, a estudante de enfermagem Giovanna Pavanelli, 21, chegou para um churrasco na casa da família, em Águas de Santa Bárbara (SP). Passou álcool em gel 70% para higienizar as mãos e foi para o quintal. Ao se aproximar do fogareiro, só se lembra de uma labareda vindo na sua direção.

“Minhas mãos ficaram em chamas. O fogo se espalhou para os braços, o tórax e as pernas. Só o rosto não queimou muito. Fiquei um mês internada com queimaduras de segundo e terceiro graus, tive que fazer enxertos de pele”, conta.

Ela ainda se recupera dos ferimentos. Dois dedos das mãos estão atrofiados.

Com a disseminação do uso do álcool em gel na pandemia para a higienização das mãos e a flexibilização da venda do produto mais concentrado (70%), centros de tratamento de todo o país têm registrado aumento de internações por queimaduras.

Em geral, são situações em que as pessoas higienizam mãos e braços com álcool e logo depois, distraídas, se aproximam do fogo: vão cozinhar ou acender churrasqueira, lareira, fogueira ou mesmo vela.

Dados inéditos da SBQ (Sociedade Brasileira de Queimaduras) de centros de tratamento de queimados de 19 estados mostram que, desde 20 de março, 445 pessoas foram internadas com queimaduras relacionadas ao alcool 70%na sua forma gel ou líquida.

O que mais chama a atenção dos médicos, no entanto, são os acidentes com álcool em gel, que inexistiam até então.

A data também coincide com uma resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que flexibilizou a venda do álcool líquido 70%, mais inflamável, em embalagens de um litro (o que era vetado por norma de 2002).

Não há dados oficiais sobre queimaduras por álcool nos anos anteriores. Segundo o Ministério da Saúde, elas não são contabilizadas em separado. Os CIDs (Código de Internacional de Doença) englobam queimaduras por corrente elétrica, radiação, raios, exposição ao fogo e contato com uma fonte de calor ou substâncias quentes.

“Com mais exposição do álcool no uso doméstico, houve aumento brusco de queimaduras. O álcool em gel deve ser usado quando a pessoa estiver na rua. Em casa, a higienização deve ser feita com água e sabão”, diz o cirurgião José Adorno, presidente da SBQ.

A norma da Anvisa que flexibilizou a vendado álcool 70% tem validade de 180 dias – vai até setembro. Há uma pressão para que não seja prorrogada.

“A medida representou um dano à sociedade. É uma luta antiga retirar o álcool do ambiente domiciliar, fazer com que as pessoas entendam que o álcool, em gel ou líquido, é uma arma”, afirma Adorno.

Em nota, a Anvisa diz desconhecer o aumento de acidentes envolvendo álcool 70%, que a flexibilização da venda ocorreu pela falta de álcool em gel no mercado no início da pandemia de Covid-19 e que a medida vale até setembro.

Segundo Adorno, além do álcool 70% ser mais inflamável, os frascos grandes têm mais chances de explodir quando próximos ao fogo, causando queimaduras profundas, que deixam cicatrizes e problemas funcionais.

Em alguns centros de tratamentos de queimados, esses ferimentos já respondem por até 40% das internações, segundo a Sociedade Brasileira de Queimaduras. A taxa de óbito varia entre 5% e 8% dos casos.

Na Bahia, o centro do Hospital Geral do Estado, o álcool 70% representa hoje a maior causa das internações por queimaduras. Até 2019, a água quente liderava, seguida de um conjunto de líquidos inflamáveis, como etanol e gasolina.

As internações passaram de três casos em março para 17 neste mês. O cirurgião Marcus Vinícius Barroso, coordenador do centro, diz que chegaram muitos pacientes com graves queimaduras em razão do uso do álcool em gel.

Um deles foi um jovem que passou o produto nas mãos, nos braços e na roupa e foi acender uma churrasqueira. “A roupa dele pegou fogo. Ele chegou aqui com 40% do corpo queimado, queimaduras de terceiro grau. Tivemos que fazer umas dez cirurgias. Terá sequelas para o resto da vida.”

Para o médico, as pessoas automatizaram o uso do álcool em gel em casa e se esquecem que ele é um produto inflamável. “O álcool gel é a 70%. O álcool que a gente tinha antes em supermercado era 42%, 46%, que não é tão fácil de inflamar. Em casa, as pessoas só devem usar água e sabão.”

Para o cirurgião plástico Jayme Farina Júnior, coordenador da unidade de queimados do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, uma peculiaridade do álcool em gel é a chama ser praticamente invisível. “A pessoa só percebe quando a queimadura já está ocorrendo.”

Na unidade, cinco dos seis leitos disponíveis para internação chegaram a ficar ocupados com vítimas de queimaduras por álcool 70% a partir de março. Antes da pandemia, apenas um teve esse fim.

Os médicos se preocupam com as inovações envolvendo o álcool em gel. Barroso, da Bahia, diz que viu em supermercados embalagem do álcool em gel com spray pressurizado. “É um lança-chamas!”

Adorno, da SBQ, conta que existem escolas no país já planejando instalar totens com álcool em gel no retorno às aulas. “É totalmente condenável. Você está colocando um mobiliário explosivo na escola. É melhor instalar mais pias com água e sabão e educar as crianças a lavarem as mãos.”

Contato de crianças com álcool exige supervisão dos pais

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatra) emitiu um alerta nesta semana para os acidentes com álcool envolvendo crianças. Além do perigo das queimaduras por fogo, a substância também pode causar ferimentos nos olhos. Desde uma irritação até lesões mais extensas na córnea.

Na semana passada, uma mãe de Campinas relatou nas redes sociais que o filho de cinco anos teve a córnea do olho direito queimada, após ser atingida por um forte esguicho de álcool em gel.

“Ele chorou muito, corri lavar com água corrente, a princípio tratei como se fosse xampu ou sabonete e não melhorou, ele continuava chorando e até tremia de dor”, contou Camila Mendes.

A mãe afirma que o médico identificou uma extensa queimadura na córnea do menino e que ele precisou ser sedado para a retirada do resíduo. Ela relata que não sabia que o álcool em gel poderia causar todo esse estrago nos olhos.

O oftalmologista Rubens Belfort Neto, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que tem aparecido casos leves de lesões nos olhos envolvendo álcool em gel.

“Ele fica meio ressecado e, quando a pessoas aperta o tubo, às vezes sai um jato. Também tem pacientes com medo do corona vírus que passaram álcool no rosto [que acabou caindo nos olhos].”

Segundo ele, o álcool machuca e remove o epitélio, a camada superficial da córnea. “Se tratado, costuma ficar bom. O epitélio cresce e fecha a ferida.”

A pediatra Sarah Saul, do departamento de segurança da SBP, orienta que frascos e vidros de álcool nunca devem estar ao alcance das crianças. “Sempre que for usar o álcool em gel tem que ter um adulto por perto supervisionando.”

Fonte: Folha de S.Paulo – Domingo, 26 de julho de 2020 – Saúde B2

Legenda da foto: Álcool em gel é utilizado para limpeza das mãos – Gabriel Cabral/Folhapress

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